Diretores – Júlio Bressane

Caetano Veloso vive o compositor Lamartine Babo no experimental "Tabu"

Caetano Veloso vive o compositor Lamartine Babo no experimental “Tabu”

Que conste dos autos: Júlio Bressane não é um sujeito fácil de lidar. Sei disso porque o entrevistei duas vezes. Mas apesar das patadas e fina ironia com que fui recebido e tratado, me esquivei delicadamente e constatei que o cara é um gênio do cinema autoral e independente, com seu jeito sofisticado, culto e inconsciente de filmar. Sempre foi.

“Fazendo filmes é que consigo me conhecer”, explicou certa vez.

Um dos expoentes do cinema marginal, ao lado de Rogério Sganzerla e tantos outros nomes do gênero, entre eles, Andrea Tonacci, André Luiz Oliveira e Carlos Reichenbach, o diretor carioca teve contato com o cinema pela primeira vez aos 11 anos, quando viajou para os Estados Unidos e ganhou uma câmera e um projetor de 16 mm. Como ele lembra hoje, foi o brinquedo mais diferente que teve e cujo resultado não sabia controlar o resultado. “Não parei desde então”, se lembraria anos depois.

E não parou mesmo. Após ser assistente de direção de Walter Lima Jr. em O menino do engenho, em 1965, estreou na direção em 1967 com Cara a cara e desde então realiza um filme por ano, incomodando e assombrando a crítica e o público com um cinema de improviso sensorial e poético. “O cinema, como sinto, é aquele que se coloca em movimento, que transpassa todas as disciplinas, todas as artes, todas as ciências e também a vida”, filosofa.

Se apropriando sempre em suas histórias de narrativa não linear e tendo consciência de que o cinema pode ser concebido de várias maneiras, construiu, a partir de radicalismo cerebral, uma cinematografia que possui características próprias. Acredite. Os filmes de Bressane são uma experiência de vida para o bem ou para o mal.

Top Five – Júlio BressaneFilme de amor

Filme de amor (2003) – Acho que foi a primeira vez que entendi o que seria o gênero cinema de poesia, com o diretor criando uma alegoria onírica, moderna e pessoal sobre o mito das três graças: o amor, a beleza e o prazer. Trancados num apartamento suburbano, os personagens se entregam numa orgia de êxtase, paixão, libertinagem e sublimação.

O mandarim (1995) – No papel de pesquisador sensorial, o diretor percorre de forma lírica a história da música brasileira do início do século 20, tendo como figura norteadora, o compositor de samba Mário Reis, vivido de forma soberba por Fernando Eiras. Chico Buarque, Gal, Caetano e Gil surgem em cena nomes de peso da nossa música.

Tabu (1982) – Ficção com pegada documental e vice-versa, o filme traz um encontro imaginário entre Lamartine babo (Caetano Veloso) e o escritor modernista Oswald de Andrade (Colé Santana). A natureza experimental da narrativa, carregada de simbologias é o ponto alto desse filme que mostra uma bem sucedida união entre a música e o cinema.

O anjo nasceu (1969) – Interditado durante anos pela censura, o filme, vaiado em pre-estreia no mítico cinema Paissandu, é o primeiro sopro de radicalismo narrativo do diretor com a história de dois marginais em busca de redenção espiritual por meio do crime. Durante anos Glauber Rocha acusaria Bressane de plágio em relação ao seu Câncer (1968/1972).

Matou a família e foi a cinema (1969) – Meio que uma metalinguagem do caos, o filme flerta com o grotesco e o dramático para contar a história de um criminoso que após render suas vítimas, pega um cineminha.

* Este texto foi escrito ao som de: Araçá azul (Caetano Veloso – 1972)

Araçá Azul

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