“Faço versos como quem morre”

Apesar de idolatrar e ser apaixonado pelas mulheres, Manuel Bandeira nunca se casou

Apesar de idolatrar e ser apaixonado pelas mulheres, Manuel Bandeira nunca se casou

“Faço versos como quem morre”, escreveu certa vez o poeta Manuel Bandeira.

E outro dia morreu outro poeta Manoel, o com “o”, o de Bastos. E eu estava tão distraído e displicente na hora, que continuei a ler Meus poemas preferidos de Manuel Bandeira, que é o poeta das musas, o que faz dele tão próximo de mim. Sim, porque eu também venero minhas musas, fazendo para elas versos, com a dedicação dos últimos dos amantes, o último dos apaixonados, “como quem morre”.

Ah, sim. E essas coisas sempre acontecem comigo. Ou seja, os acasos do destino. Enquanto escrevia este texto, um colega meu me manda uma mensagem me pedido sugestão de livro do poeta gaúcho Mário Quintana. No que eu respondo sem pestanejar, meio que em estilo telegráfico: “‘A rua dos cataventos’. É o primeiro dele. Acho que de 34’”, câmbio, desligo.

Mas como eu ia dizendo, Manuel Bandeira é o poeta das musas, o cara que melhor escreveu sobre suas musas idealizadas e de uma forma tão lírica e comovente que é como cair das nuvens quando acabamos de ler coisas do tipo:

CCF13112014_00004“Teu corpo é tudo o que brilha/Teu corpo é tudo o que cheira/Rosa, flor de laranjeira…”, se declara, em Poemeto erótico.

Mas, apesar de idolatrar e ser apaixonado pelas mulheres, Manuel Bandeira, que era míope e dentuço, nunca se casou. “Perdi a vez”, retrucava, com velado humor, quando lhe perguntavam sobre o assunto. Contudo, o motivo tinha razão mais sombria, era porque, por causa da tuberculose, o poeta achasse que fosse morrer sempre no dia seguinte. Bobagem. Um homem do século 19, ele morreria em 1968, aos 82 anos, de parada cardíaca.

E além de “o poeta das musas”, Manuel Bandeira também era um poeta pop, e numa época em que nem se falava nisso, numa época pré-beatnik, sendo uma das grandes sensações da Semana da Arte Moderna de 22, com o poema: Os sapos: “Em ronco que aterra/Berra o sapo boi:/- “Meu pai foi à guerra!”/- “Não foi! – “Foi!” – “Não foi!”.

Mas tarde, além de ser estrela e protagonista no curta de documentário de Joaquim Pedro de Andrade, O poeta do castelo, emprestou seu versos para a música do português João Ricardo, o compositor do grupo Secos e Molhados. “Bão balalão/Senhor capitão/Tirai esse peso/do meu coração”, declamava Ney Matogrosso, embalado pelo arranjo barroco.

Mas como eu ia dizendo, Manuel Bandeira era o “poeta das musas” e ao me deparar com essa certeza, me lembrei de minha musa estrela da manhã e da noite, que adormece em algum sol distante, no infinito do horizonte/Em alguma estrela da noite distante, tão longe dos meus olhos, mas aqui dentro da mente.

Só porque, como o “poeta das musas”, eu também faço versos “como quem morre”.

* Este texto foi escrito ao som de: Secos & Molhados (1973)

Secos & Molhados 11

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