O ciúme (2013)

No filme, pai e filho brincam com as nuances do amor furtivo a partir de tema vil

No filme, pai e filho brincam com as nuances do amor furtivo a partir de tema vil

Ciúme de Louis Garrel?! Mas quem não ficaria com um pão daqueles? Até eu. Mas no sintético drama O ciúme, em pre-estreia em São Paulo e Rio de Janeiro – onde foi destaque na programação do Festival do Rio – e que talvez semana que vem chegue aos cinemas de Brasília, esse sentimento vil é abordado de forma sinuosa e perturbadora. E por isso mesmo não sei se gostei do filme. Mas também não quer dizer o contrário. Digamos que fiquei, assim, inquieto.

Na trama, Louis, com seu semblante leonino encantador é Louis, um jovem ator de teatro que ainda não acertou o papel que irá fazer sua carreira deslanchar nos palcos. Mesmo assim, ele vai levando a vida numa boa ao lado da esposa também uma atriz desempregada (Anna Mouglalis) e a filha de um primeiro casamento que a vê de vez em quando.

Misterioso, desde o início da fita – que tem um clima de suspense soturno -, o casal deixa transparecer velada sensação de insegurança na relação que nos faz remeter ao título. E como o tempo todo aqui, não sabemos o que os personagens estão pensando, tramando, urdindo dentro de seus segredos mais recônditos, a angústia que perpassa a rotina desses amantes desajustados, pouco a pouco angustia o espectador também, deixando-o inquieto. Quem afinal é o ciumento e quem é o traidor? E eis aqui um dos méritos do enredo costurado em segredos até o fim, com desfecho surpreendente.

“E se um de nós é infiel, dizemos um ao outro?”, deixa a dúvida no ar Louis.O ciúme

Quando o fio desse novelo afetivo começa a se desenrolar, revela a fragilidade de uma convivência fadada ao fim por causa de coisas rotineiras de uma vida a dois como uma perspectiva de vida sombria, ciúme, falta de dinheiro.

“Posso ficar sem grana. Mas não suporto ser pobre”, reclama Claudia, a mulher que, assim como ele, o trai furtivamente.

Simples do ponto de vista narrativo, com sua fotografia em preto e branco, O ciúme marca a quinta parceria do diretor Philippe Garrel com o filho Louis. O gozado é que vi alguns filmes com o galã francês e não me recordo se algum deles tenha sido realizado pelo pai. Talvez Amantes constantes, mas não tenho certeza se assistir. Há um toque de Truffaut na trama, só que mais melancólico, pessimista.

Mas como em toda boa produção francesa, o que pesa nesse drama familiar conciso é a força do roteiro que nos surpreende com algumas armadilhas existenciais que acaba desnudando a verdadeira natureza humana. Os diálogos são intensos, às vezes propositalmente enigmáticos e as ações dos personagens comprometedoras, mas tudo mostrado sem pornografia ou apologia ao sexo.

De repente, Louis, quem acredita que o amor não tem barreira, descobre o desejo que é um simples toque de mão no escurinho do cinema. Claudia, seguindo a mesma linha tênue do amor furtivo, se deixa cortejar pelo primeiro paquerador que encontra num bar, sem se preocupar, porque entende que é vulgar, com nomes ou precedentes. Eis aí uma forma de vida amorosa que me interessa.

* Este texto foi escrito ao som de: Gilberto Gil (1969)

Gil 69

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