Crown, o magnífico (1968)

Steve McQueen charme puro lendo o Wall Street sob os olhos da amante-espiã, Faye Dunaway

Steve McQueen, charme puro, lendo o Wall Street diante da amante-espiã, Faye Dunaway

Steve McQueen era o ídolo do meu pai. Foi meu também durante um bom tempo. Cara de durão, jeitão blasé, sorriso despreocupado e sedutor, gostava de vê-lo entrar em cena arriscando o pescoço em cima de uma motocicleta ou carro sport a 100km, quase 200km por hora. Mas na comédia de aventura Crown, o magnífico, que nunca tinha assistido, mas vi outro dia em cartaz no Telecine Cult, ele faz um ricaço canastrão que tem como hobby, veja você, assaltar bancos em plena luz do dia.

“O que faz um milionário quer ter mais dinheiro”, chega a questionar um detetive em dado momento da investigação.

O seu estilo é bem discreto. Arquiteta os roubos com cinco, seis envolvidos sem mostrar a cara, revelar a voz ou dizer o nome. E é essa natureza ultra-secreta da operação que deixa intrigada a polícia de Boston, que o tempo todo bate cabeça como barata tonta em busca de uma solução para o caso. “Divirtam-se com o meu dinheiro”, debocha ao sair da sala de um gerente de banco na Suíça.

Para ajudar a resolver o problema que está deixando a opinião pública inquieta, é contratada Crowna agente de seguros Vicki (Faye Dunaway), que faz uso de técnicas nada ortodoxas para obter o que quer. Entre elas, o mais velho dos truques, a sedução, fazendo o nosso adorável fora-da-lei ficar apaixonado, mas não só ele, ela também. “Vamos jogar outro jogo”, diz ele, tomando ela pelos braços, após uma partida de xadrez que é sexo puro, sem a consumação do ato.

Mas logo, aparentemente, o cerco em torno de Thomas Crown para se fechar e ele tem que sair pela tangente, deixando no ar um enigma indecifrável. “Samba… Pão de açúcar… Selva… Pará…”, diz ele à namorada-espiã, deixando a dúvida no ar.

Com direção do canadense Norman Jewison, o filme, com seus maneirismo de câmera, tem o tipo 007 de ser, com sua narrativa ágil e estilosa pontuada por poderosa montagem de Hal Ashby, aqui bem antes de se consagrar como diretor de dramas e comédias bizarras nos anos 70. Daí o fato de batermos o olho na fita e vê-la como parente distante de sucessos no futuro como Onze homens e um segredo, de Steven Soderberg.

E claro, o filme todo se concentra no carisma e talento de Steve McQueen, então já um ator em ascensão rumo ao estrelato. A cena em que lê o jornal Wall Street em sua cobertura, é charme puro. Impagável a sequência em que embebeda um policial o fazendo bater numa árvore no meio da madrugada. E aqui e ali, sempre se encaixa uma cena em que o ator possa se divertir pilotando carros e aviões em alta velocidade.

“Sou só eu e o sistema”, faz bravata.

Despretensioso, mas incrivelmente divertido, o filme é um daqueles raros casos em que cinema de entretenimento para grande público pode render bons resultados e ser visto como trabalho de respeito.

* Este texto foi escrito ao som de: Refazenda (Gilberto Gil – 1975)

Refazenda

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