Tocaia no asfalto (1962)

Agildo Ribeiro em papel sério, na pele de um matador alagoano religioso e cabra da peste

Agildo Ribeiro em papel sério, na pele de um matador alagoano religioso e cabra da peste

Agildo Ribeiro, quem diria, já foi um sujeito sério na vida. Se você dúvida, então assista ao impactante drama baiano Tocaia no asfalto, clássico de Roberto Pires em cartaz este mês no Canal Brasil. Na fita de 1962, um dos grandes sucessos do famoso Ciclo Baiano de Cinema (1959 – 1963), ele é Rufino, um pistoleiro alagoano religioso implacável que entrou para o ramo depois de vingar a morte do irmão.

Com fama conhecida na região, ele acaba de ser contratado para matar um coronel poderoso no interior da Bahia por adversário corrupto, partindo imediatamente para o lugar, hospedando-se no prostíbulo de Dona Filó (Jurema Penna). A cena de abertura do filme, com o anti-herói chegando debaixo de chuva para cumprir mais uma de suas tarefas é marcante. “A única coisa que sei fazer é matar”, diz, sem vacilar.

Cheio de diálogos diretos e realistas, Tocaia no asfalto, com seu jeitão de faroeste urbano, impressiona pela condução de câmera segura de Roberto Pires. Nem parece que aquelas cenas filmadas por ângulos ousados foram feitas por um jovem cineasta que tinha o talento de criar lentes especiais para os seus filmes na ótica do pai.

Contudo, o filme, que traz um jovem Glauber Rocha como coordenador de produção, Tocaia no asfaltoreservaria na entrelinha outras surpresas. Uma delas está nas boas atuações, como do simpático Antônio Pitanga, na pele de um matador com pinta de Nat King Cole. Outra, na abordagem de temas avançados para época, urdidos sob o manto de um novo Brasil que aquela geração de artistas sonhava, mas prevendo que dias piores viriam. Sonhos esses proferidos pelo personagem romântico deputado Ciro, vivido pelo sempre elegante Geraldo Del Rey.

“Pretendemos destruir os dentes dessa engrenagem que faz girar a velha mentalidade que existe no Brasil da política do aproveitamento, do coronelismo, uma nova mentalidade sacode essa nação”, branda ele num discurso infelizmente atual, depois de discutir questões com a namorada como diretos de igualdade entre os sexos. “Nosso governantes tem uma falsa ideia de como servi o povo, uma causa para uma nova geração que quer o melhor”, lamenta, entre um drink e outro.

Enquanto isso, após se envolver com uma das prostitutas do seu novo lar, nosso pistoleiro recebe a notícia de que tem que recuar, já que a missão foi abortada, mas fiel ao seu código de honra, decidi ir até o fim, sem ter certeza de que é isso que quer mais para sua vida, ou seja, tirar vidas alheias. “Vamos juntar nossas infelicidades para ver no que dá”, brinca com a nova namorada, antes de partir para a morte.

Confesso que conheço pouco sobre a vida e trajetória de Roberto Pires. Para ser sincero, este é o segundo filme que assisto do cara. O primeiro foi o seminal A grande feira (1961), que vi outro dia no Canal Brasil e que é igualmente deslumbrante. Uma pena que se fala pouco e escreve pouco sobre quem teve uma participação efusiva no surgimento do cinema não apenas na Bahia, com o filme Redenção (1958), sua terra natal, mas do próprio Cinema Novo.

* Este texto foi escrito ao som de: Expresso 2222 (Gilberto Gil – 1972)

Expresso 2222

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