Tim Maia – Muito além do filme

Tim Maia entre Roberto e Erasmo Carlos, na época em que o rei trocou "Você", por "Não vou ficar"...

Entre Roberto e Erasmo Carlos, quando o rei trocou “Você”, por “Não vou ficar”…

A cinebiografia sobre a vida de Tim Maia, em cartaz nos cinemas do país inteiro, eu achei uma droga, isso não é segredo para ninguém que me ler aqui. Mas uma coisa que não contei no post que escrevi semana passada é que, a gente sai da sessão com as músicas do grande rei do soul brasileiro grudadas na cabeça, mas o mérito, que fique claro, é todo do cantor e compositor e não do cineasta Mauro Lima.

Por isso que defendo a teoria de que artistas como ele, melhor é conhecer pelo seu trabalho, pelas músicas que fez e cantou, pelo sentimento que o motivou a escrevê-las e transbordar nos corações e ouvidos dos fãs. Com sua voz de negro do Brooklin, gingado malemolente, Tim Maia foi uma grande usina de som e suingue. E de um romantismo único.

Sim, porque além de ser o rei do baile, com seu jeito gostoso e cativante de ser e cantar músicas dançantes, também exibia talento de crooner romântico moderno. Só ele, por exemplo, poderia cantar com tanta emoção e verdade, sucessos apaixonantes como Você, Eu amo você e Primavera – essas duas últimas escritas pela dupla, Cassiano e Rochael – que fez o jornalista Nelson Motta pirar ao ouvir pela primeira vez nos corredores da gravadora Philips.

Aliás, o filme não mostra isso, mas foi graças ao ouvido privilegiado de Nelson Motta, que a vida de Tim Maia deu uma guinada sensacional. Com a responsabilidade de produzir o disco de Elis Regina, então a maior cantora brasileira do momento, Nelsinho Motta estava à cata de novidade na praça e farejou naquela balada romântica deprê, uma porta de entrada para o sucesso do novo trabalho da pimentinha. Deu certo.

E não só isso. Produtor das trilhas sonoras das novelas da Rede Globo, Nelson Motta Tim Maia - Vale tudoconseguiria emplacar como tema da novela Irmãos Coragem, a canção Padre Cícero, canção de Tim e Cassiano de seu primeiro disco rebatizado por eles como João Coragem. “A música de João Coragem não podia falar em Padre Cícero e muito menos em Juazeiro. O resto da letra até que cabia no personagem, tinha certo clima épico e heróico, seria quase perfeita”, lembraria Motta na biografia que escreveu sobre o amigo Tim Maia. “Mas a música e o arranjo eram tão bons que valia um esforço de imaginação”, escreveu, revelando as duas letras para a música de Padre Cícero.

Mas a história mais hilária mostrada no filme de forma irresponsável, banal até, foi como o rei Roberto Carlos, querendo dar uma nova e ousada guinada em sua carreira, rejeitou a intimista Você, pelo funk suingado, Não vou ficar. No livro, Nelson Motta detalha que Nice, a mulher de Roberto na época, se encantou pela música e fez de tudo para o marido gravar a faixa, mas o cantor preferiu encomendar algo mais voltada para o som do momento, aquele o qual estava antenado, a black music. “Faz que eu gravo”, prometeu ele a um furioso Tim Maia.

“Puto, Tim agradeceu e disse que ia fazer. Afinal, funk, soul, agressividade e esporro eram sua especialidade. Desculpou-se, botou o gravador nas costas e Nice  mandou o motorista levá-lo em casa”, narra.

Pouco tempo depois, com a música pronta, Tim pegou um táxi e baixou na mansão dos Braga. Empolgado, Roberto vibrava e cantava junto com ele a nova música que acabara de compor e ganhava espaço no próximo disco do rei a ser lançado naquele verão de 1969.

* Este texto foi escrito ao som de: Tim Maia (1970)

Tim Maia (1970)

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