Os pássaros (1963)

A bela Tippin Hedren atacada por uma horda de selvagens seres alados em cópia restaurada no Cine Itaú

Tippin Hedren atacada por criaturas aladas em cópia restaurada no Espaço Itaú de Cinema

Depois de realizar Psicose (1960), que foi um grande sucesso na carreira de Alfred Hitchcock – talvez o maior de sua trajetória até ali -, o mestre se viu diante de um grande problema. Que história escolher para superar tamanha expectativa dos executivos do estúdio Universal, da crítica e do público? A resposta estava num conto da escritora Daphe Du Maurier, de quem o diretor já havia adaptado, em 1940, Rebeca, seu primeiro filme na América. A orientação que deu ao roteirista Evan Hunter era que eles se apropriassem apenas do título e da ideia da trama e assim foi feito.

Uma surpresa para os padrões da época, Hitchcock tinha dúvida com relação ao potencial da história no cinema e, por isso, a princípio, pensou em adaptá-la para sua série de tevê. Mas mudou de ideia quando leu reportagens sobre ataques reais de pássaros no interior dos Estados Unidos. Fez sua aposta e acertou em cheio com essa adaptação para as telonas surpreendente ainda nos dias de hoje, passados mais de 50 anos depois. E para ver que o filme ainda não envelheceu, basta conferir uma cópia supimpa de restaurada em exibição no Espaço Itaú de Cinema, no CasaPark. Eu se fosse você não perdia essa.

Os pássarosBem, para o cineasta Peter Bogdanovich, o filme é sobre o Juízo Final. Já o francês François Truffaut soa mais lírico, dizendo que “o cinema foi inventado para que semelhante filme pudesse ser feito”. Para mim, simplesmente trata-se de a revolta dos pássaros.

Na trama, a excêntrica e mimada Melaine Griffith (Tippi Hedren) esbarra com o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) numa loja de pássaros. Eles se conhecem de outros verões, mas em situações embaraçosas e, atraída pelo jeito cínico e pedante do rapaz, ele não vacila em pregar uma peça, presenteando a irmã deste com um casal de periquitos (loverbirds). Para tanto, faz o disparate de viajar 150 km, até Bodega Bay. É lá que os problemas começam quando uma gaivota lhe dá um cascudo à beira da baía.

Logo, um clima de terror toma conta do local, com a inexplicável invasão e ataques de pássaros dóceis, agora transfigurados em criaturas rebeldes e malévolas. A forma lenta, bizarra e cheia de suspense com que Hitchcock cria esse clima de caos resumiria bem o estilo que o consagraria. Nas entrelinhas da trama surreal, aliada a forte camada bíblica, uma boa pitada de sensualidade e psicanálise, com a lasciva Melaine desafiando o ciúme doentio e possessivo de Lydia, a mãe de Mitch, vivida pela imponente Jessica Tandy.

“Ela não tem medo de perder Mitch, tem medo de ser abandonada”, confidencia uma ex-namorada de Mitch a sua nova paquera. “É horrível depender dos outros para ter forças”, reclama Lydia, lamentando a morte do marido.

Cheio de efeitos especiais, Os pássaros, antes de tudo, foi um grande desafio para Hitchcock do ponto de vista técnico. Um obstáculo que ele tirou de letra, sem macular o estilo elegante e irônico que marcaram suas clássicas obras. A sequência em que uma horda de pássaros vingativos ataca a única escola da cidade e um posto de gasolina, bem no centro de Bodega Bay, é cinema puro. Contudo, o filme, à revelia de sua premissa apocalíptica, já antecipava uma questão bastante em voga nos dias de hoje, ou seja, o duro e inconsciente embate entre o homem x natureza.

“É a raça humana que dificulta a vida no planeta”, profetiza um dos personagens.

* Este texto foi escrito ao som de: Fifth dimension (The Byrds – 1966)

Fifth dimension

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