Diretores – F. W. Murnau

Para Scorsese o mestre do expressionismo alemão era um poeta do visionário...

Para Scorsese o mestre do expressionismo alemão era um poeta do visionário…

Uma das coisas que eu não sabia sobre o diretor alemão F.W. Murnau era de seu homossexualismo. Detalhe sugerido pelo diretor Cacá Diegues na autobiografia, Vida de cinema, quando este relata a viagem que fez pelas colinas de Big Sur (Califórnia), nos anos 70, lembrando que fora ali que morrera, num desastre de carro, aos 43 anos, o mestre do expressionismo alemão, durante um blow job que aplicava em seu jovem motorista e amante.

Fofocas a parte, o fato é que Murnau foi um dos mais brilhantes, modernos e ousados nomes da sétima arte, tudo isso numa época em que o cinema era apenas uma criança travessa em busca de novos horizontes. Fico pensando o que ele faria nos dias de hoje com toda essa tecnologia existente, tendo em vista que em pleno cinema silencioso, com as dificuldades técnicas da época, ele foi capaz de nos brindar com imagens deslumbrantes.

E aí está o segredo das obras de Murnau, ou seja, a beleza visual, transcendente, sublime de seus filmes, como que – como comentaria mais tarde o cineasta norte-americano Martin Scorsese -, a construir poemas visionários.

A profundidade e complexidade com que o diretor tecia o realismo psicológico de seus roteiros têm muito a ver com o olhar de artesão, mas um olhar ao mesmo tempo lírico, no desenvolvimento de elementos cinematográficos imprescindíveis como a composição das imagens, o cenário, o uso da câmera, a montagem. Temas universais como medo da peste (Nosferatu), a vaidade (A última gargalhada), a ambição (Fausto), o ciúme (City girl), a perda da inocência (Tabu), a infidelidade (Aurora), são abordados quase sem nenhum uso da palavra, mas com habilidade humanista comovente na construção dos sentimentos e sensações.

Top Five – E. W. MurnauNosferatu 4

Nosferatu (1922) – Na faculdade eu adorava vasculhar os VHSs de clássicos da formidável videoteca do lugar e um dos filmes que descobri lá, junto como o bizarro, O gabinete do Dr. Caligari (1922), foi essa pérola do expressionismo alemão. Murnau não obteve os direitos de filmagem da obra de Bram Stoker e resolveu criar sua versão desse clássico do terror. Um dos raros casos em que uma adaptação sufoca a matriz.

Aurora (1927) – Primeiro filme do diretor em Hollywood é também uma obra-prima de narrativa e surpresas visuais. Na época o produtor William Fox pediu a Murnau que ele fizesse um filme grandioso, “custe quanto custar” e o diretor alemão não decepcionou. A cena do porquinho dançando bêbado é hilariante e mágica.

City girl (1929) – A história de uma garçonete descolada da cidade que se apaixona por um rapaz ingênuo do campo chega a ser piegas, não fosse a complexidade e tensão psicológicas imprimidas pelo diretor ao longo da trama. No final, o amor vence.

Fausto (1925) – Adaptação do clássico de Goëthe, o filme impressiona pelo visual maniqueísta e perturbador do mal e do bem desenvolvidos pelo diretor. É bem capaz do espectador se deixar ofuscar pela beleza hipnotizante do lado sombrio da vida aqui criado.

Tabu (1930) – Dirigido a quatro mãos com o documentarista americano Robert Flaherty, Murnau aqui segue os passos do pintor Gauguin para filmar o paraíso perdido nas distantes ilhas da Polinésia francesa. A ingenuidade da trama não chega a abalar a beleza das imagens.

* Este texto foi escrito ao som de: Pipes of peace (Paul McCartney – 1983)

Pipes of peace

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