Relatos selvagens (2014)

Me identifiquei com o engenheiro esquentadinho vivido pelo galã Ricardo Darín

Me identifiquei com o engenheiro esquentadinho vivido pelo galã Ricardo Darín

E deu Ricardo Darín versus Daniel Hendler, no velado embate cinematográfico que criei depois de assistir, recentemente, dois filmes dessas duas estrelas do cinema latino-americano. Por sinal, duas comédias, a primeira Vino para robar, de Daniel Winograd, que me aborreceu bastante, por seu superficialismo. A segunda o formidável filme de episódio, Relatos selvagens, do sempre surpreende diretor Damián Szifrón, que vi outro dia no Libert Mall.

Destaque na abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a fita, único representante do continente na briga por uma vaga ao Oscar, traz produção de Pedro Almodóvar e atuações sensacionais. Mas não só isso, ao contrário das comédias brasileiras, tem texto, conteúdo. O que fez um amigo meu postar no face, bem inspirado, que são seis episódios acima da média do cinema nacional no gênero. Como diria o Ibrahim Sued, concordo em “número, gênero e degrau”.

A primeira coisa visível no filme é o humor negro inteligente e sofisticado que perdura a trama de cabo a rabo. Os 15 minutos iniciais de Relatos selvagens é uma grande piada, mas uma piada nada gratuita ou cheia das grosserias de bobagens como O candidato honesto. E a ironia elegante de Damián Szifrón, também roteirista aqui, nos brinda com reflexões sobre a selvageria humana que impera nos grandes centros urbanos como Nova York, São Paulo ou Buenos Aires. Em clima de “moral da história”, discute temas pertinentes como injustiça social, intolerância, negligência e vaidade.

“Às vezes temos que sacrificar um músico ruim para salvar uma comunidade de ouvintes”, Relatos selvagensfaz troça u crítico musical logo na abertura do filme.

De tão críveis de acontecer no nosso dia a dia, somos até pegos, no escurinho do cinema, nos identificando com alguns dos personagens e situações. Eu mesmo me vi na pele do engenheiro esquentadinho vivido pelo charmoso Ricardo Darín e daí fica aquela sensação e alerta de que, se a gente não mudar, um dia coisa semelhante pode nos acontecer. Daí os risos nervosos do espectador entre uma bizarrice e outra.

De todos os episódios, o que mais me chocou foi o do pai milionário que se viu obrigado a desfazer de parte de sua fortuna para salvar a pele do filho delinquente. Com sutil pitada de sabedoria dos textos morais de um Eduardo Galeano, Damián Szifrón com elegância narrativa vai desnudando a natureza humana de forma constrangedora a partir de personagens inescrupulosos e sem caráter. O desfecho é exemplar, diria que bíblico, nos fazendo pensar que o ser humano é um projeto que não deu certo.

Claro que, a revelia da unidade apresentada pelo projeto como um todo, faço algumas ressalvas. Acho que alguns dos episódios, por questões românticas minhas, deveriam ser enxugados. Por exemplo, no capitulo do astro Ricardo Darín, eu terminava ali com ele sendo pego pela segunda vez pelo Detran local. No capítulo do jovem casal recém-casado que entram em conflito no meio da festa, eu teria terminado o filme com o singelo e simpático cozinheiro ítalo-americano consolando a descontrolada noiva traída no topo de um prédio. Mas como disse, pesou na hora o meu lado romântico.

* Este texto foi escrito ao som de: Flowers in the dirt (Paul McCartney – 1989)

Flowers in the dirt

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