Diretores – Joaquim Pedro de Andrade

O cineasta (dir.) em Minas, dirigindo Fernando Torres em "Os Inconfidentes"

O cineasta (dir.) no interior de Minas, dirigindo Fernando Torres em “Os Inconfidentes”

Não sei se li isso em algum lugar, mas sempre ouvi dizer que Joaquim Pedro de Andrade era o príncipe do cinema brasileiro. Talvez fosse um comentário maldoso de algum desafeto da classe, devido à origem burguesa do cineasta carioca que, não sei por que, achei que fosse mineiro. Impressões à parte, o fato é que a cinematografia desse filho de intelectual metido com as artes, sobretudo a literatura e a sétima arte, tinha mesmo um estilo nobre.

Formado em Física, Joaquim Pedro nunca quis nada com as moléculas e, antes de entrar para a faculdade, cresceu cercado de gente como Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Hollanda, Lúcio Costa e Manuel Bandeira, este último seu padrinho de crisma, homenageado no curta-metragem de 1959, O poeta e o Castelo.

Inspirado no poema Negro amor de Carlos Drummond de Andrade, filma em 1965, sua primeira ficção, o drama intimista O padre e a moça, fazendo da literatura brasileira eterna para suas histórias na telas. “Só sei fazer cinema no Brasil, só sei falar de Brasil, só me interessa o Brasil”, deixou registrado certa vez.

Para mim, Joaquim Pedro foi o mais intimista dos cineastas do Cinema Novo com seu olhar elegantemente crítico sobre a realidade que o cercava. Basta conferir o drama histórico, Os inconfidentes. Figura fácil na boemia carioca foi num dos bares-sensações do Rio que cunhou a frase que resumiria seus trabalhos. “Faço filmes sobre a patifaria e a safadeza. Uma das minhas fontes de inspirações é o Velho Testamento”, zombou.

O cineasta morreria jovem, aos 56 anos de idade, em 1988, antes de realizar aquele que seria um de seus projetos mais importantes: filmar o épico antropológico, Casa-grande & senzala. Anos mais tarde, no Festival de Brasília, tive oportunidade de entrevistar sua filha Alice de Andrade (a cara do pai), competindo no evento com estranho filme Diabo a quatro.

MacunaímaTop Five – Joaquim Pedro de Andrade

Macunaíma (1969) – A abordagem tropicalista do diretor, flertando com circo, chanchada, pop art, pastelão, Hollywood não foi suficiente para me fazer gostar do texto de Mário de Andrade, uma chatice. Com atuações hilárias de Grande Otelo e Paulo José, o filme, a maior bilheteria do Cinema Novo, fez a cabeça do diretor alemão Werner Herzog.

O padre e a moça (1965) – Baseado no poema, Negro amor, de Carlos Drummond de Andrade, o filme é de uma sutileza incrível, à revelia de tema espinhoso e lembra um pouco as fitas de Antonioni pelo silêncio visual. Filmado como um lindo exercício de estilo traz ainda fotografia deslumbrante e uma Helena Ignez deliciosamente tímida, mas não fria.

Os inconfidentes (1972) – De carona nos 150 anos da Inconfidência Mineira, o diretor usa como metáfora o Brasil de 1789 para criticar o governo do presidente Médici, um dos piores da ditadura. A narrativa lírica e fotografia solar não conseguiram esconder certo pessimismo velado.

Guerra conjugal (1977) – Entrelaçando várias tramas baseadas em contos de Dalton Trevisan, o filme é um dos marcos da comédia erótica no Brasil. Só mesmo o diretor, com sua habitual elegância, para filmar os prazeres da carne sem parecer vulgar. Montagem impecável.

Garrincha, Alegria do povo (1963) – Projeto encomendado, o diretor imprimiu aqui seu estilo intimista em documentário que capta o que ainda restava de um dos maiores ídolo do futebol brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Satwa (Lula Côrtes e Laílson – 1973)

Satwa

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