O Juiz (2014)

Trama de Shakespeare em trama que mistura drama familiar e thriller de tribunal

Trama de Shakespeare em trama que mistura drama familiar e thriller de tribunal

No drama O Juiz, em cartaz na cidade, o bonitão Robert Downey Jr. deixa a armadura de Homem de Ferro no camarim para encarnar, com propriedade, as agruras de um homem comum na pele de advogado arrogante e competente. Mas o cinismo está lá, intacto como sua fantasia de super-herói. Na fita ele é Hank Palmer, um profissional da lei seguro de si que sabe muito bem em que lado deve trabalhar. “Só defendo os culpados porque os inocentes não podem pagar”, explica.

Mas em casa a realidade é outra. A mulher acaba de traí-lo com um amigo dela da faculdade e ele se sente culpado com relação à filha, no meio desse tiroteio de rancor doméstico. Para piorar as coisas, Palmer acaba de perder a mãe e é recebido com hostilidade pelo pai no velório, um poderoso e influente juiz de cidade provinciana que ele não se sente à vontade de reencontrar. “As coisas por aqui não mudaram nada”, alfineta para si mesmo.

Um dia, amargurado com a morte da esposa, o Juiz Joseph sai de casa para comprar ovos e se envolve num atropelamento que mata um criminoso julgado por ele duas décadas atrás. O desastroso incidente, como em todo drama familiar, desenterra uma avalanche de afetos perdidos, tragédias pessoais e morais, ressentimentos, pungentes sentimentos de culpa e arrependimento.

O Juiz 3“Essa família parece um quadro de Picasso”, ironiza o advogado Palmer, que deixa o orgulho de lado e se propõe a defender o pai no tribunal.

Situação surreal essa de um Juiz que sempre lutou para manter intacta sua imagem e senso de justiça diante de seus pares e da sociedade em que vive, mas que é pego de surpresa pelas ciladas que o destino nos prega. No fundo, por traz daquele falso verniz de moralidade, esconde um homem fraco e hipócrita que se defende intratável soberba e arrogância.

Um câncer implacável e o afeto de uma netinha carinhosa irão colocá-lo no eixo, mas não o bastante por restabelecer a amizade entre pai e filho. Shakespeariano em sua dramaturgia, O Juiz, do diretor David Dobkin, cozinha numa mesma panela dois filões explorados à exaustão por Hollywood: os filmes de tribunais e os dramas familiares. Do ponto de vista da atuação é um sundae, com Robert Downey Jr. duelando de igual para igual com o brilhante veterano Robert Duvall, além da elegante e impecável presença do eterno rebelde Billy Bob Thornton. Pelo lado da história, é surpreende pelo realismo de situações dramáticas, como a cena do banheiro em que um velho decrépito luta pela vida à beira da privada.

Há quem identifique problemas na narrativa cheia de surpresas dramáticas e situações cômicas, acusando o estilo do diretor pouco ousado. O que acho uma bobagem, já que a proposta aqui é clássica e exuberante. Podem chiar o quanto quiserem. Para mim é, de longe, um dos melhores dramas norte-americano dos últimos tempos.

* Este texto foi escrito ao som de: Innerspeaker (Tame Impala – 2010)

Innerspeaker 2

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s