Os selvagens dos estádios

Ao invés de torcedores, nos deparamos com marginais nos campos de futebol

Ao invés de torcedores, nos deparamos com marginais torcendo por seus times

Já foi o tempo em que eu me escabelava por causa de bola. Muito tempo mesmo, da época em que andava por aí de calças curtas, pés no chão e com o peito carregado de certa ingenuidade que hoje me faz sentir saudades. Sabia todos os nomes dos jogadores do meu clube do coração, o Atlético Mineiro, e não perdia nenhum jogo da Seleção Brasileira. Quando a Copa do Mundo chegava então, era aquela festa, uma alegria cívica por meio do esporte mais popular. Bem, gostava tanto de bola, mas tanto mesmo, que cheguei a ser centro-avante do Anápolis Futebol Clube, time da minha cidade. Mas sabe o que aconteceu? Um dia escutei Hey Jude dos Beatles e minha vida, como num passe de mágica, mudou.

Mas mesmo nesses tempos de euforia futebolística, nunca fui um torcedor fanático, chato, daqueles que briga com o torcedor adversário para defender seu clube do coração. Sim, porque violência nenhuma justifica brigar pelo time que torcemos. Por isso que fico vendo esses torcedores brigões que vão ao estádio e me chocado as atitudes símias dos caras. Parece até que não evoluímos. Lembro na hora de homens das cavernas com tacapes nas mãos e sem nada na cabeça. Para mim, esses torcedores trogloditas lembram os lutadores de UFC, sujeitos que brigam com os adversários até a sangrar para provar nada.

ESPNOutro dia mesmo fui ao estádio, coisa que não fazia há tempos. Diria que há décadas. Era uma partida entre a Anapolina (GO) – outro time da minha cidade – e o Londrina (PR), o terror do Sul. A partida foi em Anápolis e a torcida adversária, apesar de menor, barulhenta, baderneira e provocadora. Não demorou muito para os ânimos se acirrarem e a briga começar. Logo os policias tiveram que entrar em ação e a confusão estava armada.

O curioso é o comportamento de alguns elementos. Tinha torcedor, meu chapa, que saia do outro lado da arquibancada só para provocar o visitante a troco de nada. Pura babaquice. A impressão que tenho é que algumas figuras vão ao estádio só para brigar e isso é um retrocesso de vida.

Vi um documentário inglês dias desses no canal ESPN, cujo nome não me recordo agora, que me deixou assim, digamos, embasbacado. Mas falava do fanatismo das torcidas no Brasil e do comportamento selvagem e retrógrado de algumas torcidas. O repórter viajou o país inteiro e falou com representantes dos torcedores dos maiores clubes do país e o resultado foi revoltante. Tem torcedor que anda armado. Alguns sujeitos, comportando como representantes de falanges guerreiras saiam com pérolas como: “Se a gente tiver que matar mata, se tiver que morrer pelo clube a gente morre”, disse um deles com cara de marginal, na maior cara de pau.

Outro, com a camisa do clube escondendo o rosto, exaltando postura machista ultrapassada, explicou ao repórter que a mulher que casar com ele tem que entender que o time e os amigos torcedores estão acima de tudo. “A mulher que casar comigo tem que saber que em dia de jogo não vou ficar em casa e que se vencermos, vou virar a noite bebendo com os amigos”, comentou contando vantagem. “Torcer pelo time com álcool é melhor ainda”, arremata.

Houve um tempo em que torcer pelo time do coração era romântico. Hoje dá medo ir aos estádios porque, ao invés de torcedores, nos deparamos com verdadeiros selvagens nas arquibancadas.

* Este texto foi escrito ao som de: Caçador de mim (Milton Nascimento – 1981)

Milton Nascimento - Caçador de mim

 

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