Um Indiana Jones das artes

Tavinho Moura e Milton Nascimento entre as atrizes Cristina Aché e Déborah Bloch

Tavinho Moura e Milton, entre as atrizes Cristina Aché e Déborah Bloch

Ok, a ideia não é minha, foi o Ruy Castro quem me sugeriu durante uma entrevista, mas mesmo assim já deixei registrada em testamento. É que o povo medíocre lá em casa não ajuda, mas quando eu morrer meu chapa, não quero ir nem para o céu, muito menos para o inferno. Quero ir para um sebo, qualquer um, aqui em Brasília, lá na Barata Ribeiro, no Rio de Janeiro ou em Paris. Só para que eu poder ver, ouvir e descobrir em morte, as histórias nos livros e músicas que não der tempo de conferir por aqui em vida.

Sim, porque não existe coisa mais formidável do que passar uma tarde inteira, igual a um Indiana Jones das artes, cavoucando, descobrindo e se maravilhando com relíquias da música, do cinema e da literatura. O prazer de descobrir algo raro ou que simplesmente nos comove, por mais reles, simples e escondido nas estantes e prateleiras que seja, é inenarrável, algo como chupar um sundae com esse calor infernal que está fazendo.

E me preencho de música, filme e literatura, enfim, de sonhos da imaginação sonora ou visual para sobreviver diante das agruras da vida. A maioria das pessoas busca conforto diante dos problemas do dia a dia na religião ou no dinheiro. Eu não. Eu quando fico deprimido, chateado ou com vontade de sumir para outro planeta me tranqüilizo lendo um livro ou ouvindo uma canção. Saco um título da minha estante mágica ou fuço um CD e DVD em minhas prateleiras e tudo passa como se eu fosse anestesiado diante da chata realidade.

Geraes 2Por isso que sempre estou visitando sebos ou lojas do gênero por aí. É onde me sinto bem, feliz, livre, leve e solto. E no momento estou curtindo uma fase nacional no cinema e na música, revendo filmes de Cacá Diegues, Leon Hirzsman, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pereira dos Santos, clássicos da MPB. Nos últimos dias, por exemplo, procurando daqui e dali, consegui encontrar algumas, senão raridades, surpresas agradáveis que são os discos do início da carreira do Milton Nascimento e reedições dos trabalhos da pimentinha Elis Regina, dois artistas que estimo muito.

Falando sobre Milton Nascimento, ao ouvir, depois de muitos anos, Geraes, disco do artista gravado em 1976, sofri um daqueles processos proustianos remissivo ao tocar na vitrola canções como Calix Bento e Cio da terra, dois registros que marcaram a minha infância, da época em que remexia com o espírito de desbravador, os vinis do coroa. Releitura de clássica folia de reis realizada pelo pesquisador Tavinho Moura, Calix Bento é de uma beleza rústica comovente. Confesso que não consegui segurar as lágrimas. Já Cio da terra será sempre lembrada por mim pela regravação root da dupla Pena Branca e Xavantino.

E desses discos do mineiro Milton que garimpei, o que tem mais me tocado e tocado incessantemente em minha jukebox sentimental, é Sentinela, álbum gravado em 1980. Acho que pela mistura marcante e inusitada de sons regionais e ritmos latinos, com pérolas como Sueños con serpientes, gravado em parceria com a artista argentina, Mercedes Sosa. “Há homens que lutam um dia/E sao bons/Há outros que lutam um ano/E são melhores/Há aqueles que lutam muitos anos/E são muito bons/Porém há os que lutam toda a vida/Esses são os imprescindíveis”, declama a cantora logo na abertura da faixa, citando o dramaturgo alemão, Bertolt Brecht.

Linda canção tradicional de marujada – ritmo dos vaqueiros do Pará -, Peixinhos do mar, com sua cantiga envolvente, é mais uma contribuição de peso do talentoso músico mineiro, Tavinho Moura.

* Este texto foi escrito ao som de: Sentinela (Milton Nascimento – 1980)

Sentinela

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