Tabu (2012)

Um filme que entrelaça a agridoce lembrança do passado e extasiante fuga dos amantes...

Um filme que entrelaça a agridoce lembrança do passado e extasiante fuga dos amantes…

Quando um colega me falou sobre o DVD que iria me emprestar, logo o título me remeteu ao filme homônimo do carioca Júlio Bressane de 1982, que fala sobre um encontro imaginário entre o compositor Lamartine Babo e o escritor modernista Oswaldo de Andrade. Não tinha nada a ver, mas a belíssima produção portuguesa Tabu, de Miguel Gomes, faz referência a outro clássico do cinema com o mesmo nome que não conheço, enfim, o derradeiro trabalho do alemão F. W. Murnau rodado entre 1929 e 1931, na Polinésia Francesa, junto com o mítico documentarista Robert Flaherty. Como não vi esse último, fiquei, nos dizeres da fala lusitana, a ver navios.

Rodado em 2012, em Moçambique, Tabu, de Miguel Gomes, é um dos mais bem sucedidos filmes portugueses dos últimos tempos e importante representante da nova geração de cineastas daquele país que tem apostado numa cinematografia calcada no trabalho de autor. Filmado em preto branco, o filme tem início em tom de fábula, narrando a lenda de um explorador branco na África que se suicida, deixando ser devorado por um crocodilo por conta de uma desilusão amorosa. Daí o enigmático e horrendo crocodilo no cartaz da fita.

Em seguida, conhecemos a história de Aurora – título de outro filme de Murnau -, uma velha Tabu 3rabugenta, meio esquizofrênica que amarga seus últimos anos de vida em Lisboa ao lado de uma empregada do Cabo Verde. Viciada em jogo de cartas e cassinos, perdeu tudo o que tinha na vida e agora tem que sujeitar a humilhação de pedir dinheiro à filha que nunca vê. Quando ela morre, um misterioso homem desnuda um passado marcado por mistérios, amor e crime vivido ao sopé do Monte Tabu, lugar localizado numa África de filme de aventura dos anos 50.

“O coração, o mais insolente músculo do corpo”, comenta em off o narrador logo na abertura da fita.

Silencioso, nostálgico, Tabu aposta na invenção da narrativa fazendo uma leitura provocativa e lírica sobre o impacto com que o tempo tem em nossas vidas e como a memória, boa ou ruim, nos ajuda a manter viva, as nuances do passado. “A vida das pessoas não é como nos sonhos”, ensina a personagem Pilar, a mais racional em cena.

Em contraponto a essa abordagem poética, o diretor Miguel Gomes entrelaça em sua narrativa, de maneira bem simples e objetiva, episódio recente da história de seu país, com citações sobre o início do fim do domínio português no continente africano. Aliás, essa parte do filme é a mais interessante e gostosa de ver, trazendo nas entrelinhas a juventude dos personagens Aurora (Ana Moreira) e Gian-Luca (Carloto Cotta) explodindo no calor de seus desejos. Sim, porque não há nada mais excitante do que a fuga dos amantes.

Sim, o passado pode ser uma agridoce ferida na alma humana. Um dos filmes mais instigantes que vi nos últimos tempos.

* Este texto foi escrito ao som de: Velô (Caetano Veloso – 1984)

Velô

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