Roberto Carlos – Um homem de fé

Bem, se for para escrever sobre Cristo, fé e religião, que faça como o Rei

Bem, se for para escrever sobre Cristo, fé e religião, que seja como o Rei

No meu tempo de coroinha, quando o padre ou a irmã da hora falavam sobre “o homem de fé”, já sabíamos tratar de Abraão, que em temor e fervor a Deus, quase tirou a vida do próprio filho para provar sua dedicação ao Senhor. Com o tempo descobri que havia um homem de fé mais interessante do que o profeta do Velho Testamento: o rei Roberto Carlos. Isso mesmo. E bem antes da atual fase Jesus/Maria, o rei Roberto Carlos escrevia belíssimas canções de fé. Canções de fé com forte inclinação social. Eu penso assim, se for para escrever canções de louvor a deus, que seja como as que o rei Roberto Carlos escreveu no passado.

O primeiro sucesso escrito pela dupla, Roberto e Erasmo, nessa direção, foi o formidável e inesquecível hit Jesus Cristo, uma obra-prima do pop gospel que embalou a última passagem do Papa João Paulo II, em 1997.  Direto, simples, o sucesso, gravado em 1970, traz um arranjo black poderoso norteado por back vocal contagiante capaz de mexer com crianças e adultos. Minha sobrinha de 4 anos não tira esse refrão da boca. “Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui!”, diz a frase arrebatadora.

Gravado no disco posterior de 1971, Todos estão surdos foi o segundo hit de cunho religioso escrito pelo artista em parceria com Erasmo, e traz um discurso pacifista raivoso cheio de mensagens direcionadas aos jovens hippies da época. A rispidez dos tempos de guerra fria, com conflitos espocando nos quatro cantos do planeta surge nas entrelinhas de forma lírica e inteligente como só a dupla consegue fazer. Talvez com James Brown na cabeça, Roberto e o arranjador norte-americano Jimmy Wisner elaboraram um arranjo soul de arrepiar.

“Desde o começo do mundo/Que o homem sonha com a paz/Ela está dentro dele mesmo/Ele Roberto_Carlos_1970tem a paz e não sabe/É só fechar os olhos e olhar pra dentro de si mesmo”, ensina nos primeiros versos para depois insistir. “Outro dia, um cabeludo falou: ‘Não importam os motivos da guerra/A paz ainda é mais importante que eles.’/Esta frase vive nos cabelos encaracolados/Das cucas maravilhosas/(..) Muita gente não ouviu porque não quis ouvir/Eles estão surdos!”, canta, com sentimento de revolta velado.

Em clima de marcha circense, a envolvente A montanha, traz uma abordagem diferente sobre o tema, com letra contemplativa e cheia de agradecimentos. “Por isso eu digo/Obrigado, Senhor, por mais um dia/Obrigado Senhor, que eu posso ver que seria de mim/Sem a fé que eu tenho em você”, diz o refrão.

Depois do pífio registro de 1973, O homem, Robertão e o eterno parceiro emplacam no ano seguinte a pastoril, Eu quero apenas, onde evoca um mundo de paz e amizade junto com um coro de pássaros e milhões de amigos. O tom campestre impera também no samba de 1975, Além do horizonte, em que as belezas da natureza são comparadas com o desejo de paz no mundo. “Além do horizonte existe um lugar/Bonito e tranquilo pra gente se amar”, canta o rei, sem medo de ser brega.

Até a virada da década de 80, duas outras músicas com esse tema marcariam o inconsciente coletivo, a dançante Fé, de 1978, e a ingênua A guerra dos meninos, cujo clipe de final de ano, na Globo, até hoje é uma tatuagem de boas recordações nos corações de quarentões como eu. Evocando Chaplin, A flauta mágica e aquela passagem da Bíblia em que Jesus diz: “Vem a mim as criancinhas”, canta versos inspiradores como:

“E saí cantando meu pequeno hino/Quando vi que alguém também cantava/Vi minha esperança na voz de um menino/Que sorrindo me acompanhava.”

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1980)

Roberto Carlos - 1980

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