Diretores – Nelson Pereira dos Santos

O cineasta Nelson Pereira dos Santos (esq.) e o filho Ney Santanna (dir.), nos bastidores de mais uma filmagem

Nelson Pereira (esq.) e o filho Ney Santanna (dir.), nos bastidores de mais uma filmagem

Nelson Pereira dos Santos pode não ser a figura mais emblemática do Cinema Novo, mas foi um dos mais importantes, o pioneiro, com sua obra clássica, Rio, 40 graus, lançada em 1956. E não apenas isso. Foi também o mentor de uma turma que via nele a merecida figura de um mestre e líder. O que ele foi de forma serena e natural. E que mestre. Que líder.

Com alguns anos a mais do que jovens talentosos cineastas em ascensão como Glauber Rocha, Arnaldo Jabor e Cacá Diegues, entre outros, Nelson Pereira exercia um fascínio marcante por sua maturidade como artista e figura humana. Em sua biografia Vida de cinema, editada recentemente pela editora Objetiva, o cineasta Cacá Diegues não esconde a importância de Nelson para o cinema nacional e para sua geração. “Descobri, vendo Rio, 40 graus, que era possível fazer um cinema nobre como aquele no Brasil, um registro de estado com valor cinematográfico moderno”, escreve Cacá no livro. “Rio, 40 graus me dava a sensação de que o cinema brasileiro podia estar na vanguarda do cinema mundial e, ao mesmo tempo, ajudar a mudar o país miserável e injusto em que vivíamos”, completa.

Culto, inteligente e sensível, Nelson Pereira norteou seu cinema baseado por textos clássicos de nossa literatura, vertendo para as telas, obras de Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Hollanda e claro, Graciliano Ramos. Por sua contribuição ao segmento, ganhou justamente uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), sendo o primeiro cineasta a conseguir tal feito.

Top Five – Nelson Pereira dos SantosVidas secas

Vidas secas (1963) – Baseada em obra homônima escrita por Graciliano Ramos, conta a trágica história de um grupo de retirantes no sertão brasileiro. Um dos vértices do Cinema Novo, junto com Os fuzis (1964), de Ruy Guerra, e Deus e o diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, norteou os fundamentos do movimento com sua fotografia crua, assinada por Luiz Carlos Barreto, narrativa direta e simplicidade das locações. Numa palavra? Marcante.

Memórias do cárcere (1984) – Mais uma vez o cineasta consegue dá dignidade visual ao brilhante texto de Graciliano Ramos, que narra aqui sua passagem na prisão durante o regime ditatorial de Getúlio Vargas. Um épico com mais de três horas de duração, traz belo trabalho de direção de arte e boas atuações, entre elas, do colossal Carlos Vereza, no papel do autor.

Amuleto de Ogum (1974) – Faroeste urbano cheio de reviravoltas, o diretor flerta aqui com o misticismo e o sobrenatural ao narra a história de um matador de aluguel com corpo fechado (Ney Santanna, seu filho). Com trilha sonora de Jards Macalé, traz vôos de câmara ousados e rebeldia narrativa, mostrando que o mestre sempre sabia onde colocar o olho.

Boca de ouro (1963) – Enquanto esperava que a chuva fosse embora durante as locações de Vidas secas, no sertão de Alagoas, o diretor aceitou a proposta do ator e produtor Jece Valadão em adaptar essa obra de Nelson Rodrigues para as telas. Sucesso de público, o filme, bem produzido e realizado, narra a história, em flashback, de um bicheiro com a boca cheia de ouro.

Rio, 40 graus (1956) – Obra seminal do Cinema Novo, esse semidocumentário contundente narra de forma simples, mas honesta, um dia na vida de cinco jovens de uma favela e suas andanças pelas ruas do centro do Rio. O olhar crítico ao apartheid social, já naquele tempo, incomodou a censura.

* Este texto foi escrito ao som de: Falso brilhante (Elis Regina – 1976)

Falso Brilhante

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