Bem-vindo a Nova York (2014)

No filme, o ator Gérard Depardieu vive importante diretor do FMI viciado em sexo

No filme, o ator Gérard Depardieu vive importante diretor do FMI viciado em sexo

Quando vi o cartaz bem ali no Liberty Mall, mais do que o nome do diretor Abel Ferrara, me chamou atenção a presença do ator francês Gérard Depardieu no elenco. E foi assim que, sem ler ou saber nada sobre o filme, ou seja, “no escuro” mesmo, que vi outro dia no espaço o drama Bem-vindo a Nova York. Cineasta cultuado, dono de estilo visceral e violento, ele conta aqui, numa versão dos fatos, o que aconteceu em 2011 com então poderoso diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, preso no aeroporto de Nova York, com a acusação de ter abusado sexualmente de uma camareira de hotel que se hospedou na cidade. Daí o título mais do que irônico do filme.

Humilhado publicamente, Dominique Strauss viu a carreira e vida pessoal degringolarem ladeira abaixo, com a promissora candidatura à Presidência da França evaporando como num passe de mágica e a esposa dando adeus, após segurar os trancos com ele em sua estadia no inferno na Big Apple. “É um crime eu querer ser jovem”, justifica, ele, tentando explicar sua condição de ninfomaníaco.

Filmado de forma realista e sem julgamento de valores, o filme traz Gérard Depardieu noWelcome-to-New-York-1papel do diretor do FMI em atuação marcante, sem medo de expor sua decadência física, aparecendo nu diante das câmeras naturalmente. Nas cenas de sexos, ele, com todo o seu peso e robusta envergadura, parece um urso desengonçado enrabando uma pobre gazela numa daquelas noites de orgias regadas a sorvete de uísque e tatuagens de flores de laranjeiras. “Na América tudo é maior e menor”, diz um dos convidados dessa bacanal de luxo.

Mas, ao mesmo tempo em que choca o público com a vida pregressa de Devereaux/Dominique, um ogro pervertido mergulhado no seu vício por sexo e bacanais delirantes – das quais surgiram relações não consentidas – o diretor Abel Ferrara traz à tona o pesadelo pessoal e fragilidade de um alto figurão do mercado financeiro devastado por conduta imoral. A cena em que, no alto de sua importância é ridicularizado por agentes penitenciários é constrangedora. A relação conflituosa com a mulher Simone (Jacqueline Bisset) é escancarada no olho do furacão desse escândalo, expondo a fragilidade de uma união costurada pelo conforto do dinheiro, pela hipocrisia da aparência e amor negligenciado. “Preciso de sua pele”, chega a dizer um deles, no calor do momento.

Às norteado por pegada jornalista e totalmente apoiado em dramaticidade segura, Bem-vindo a Nova York é um filme impecável em sua realização técnica e ficcional. Confesso que após a experiência senti mais à vontade em conhecer a filmografia desse cineasta instigante e questionador.

* Este texto foi escrito ao som de: Cheek to cheek (Tony Bennett & Lady Gaga  – 2014)

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