Branco sai. Preto fica (2014)

O cineastas Adirley Queirós e sua equipe no palco do Cine Brasília, no último sábado

O cineastas Adirley Queirós e sua equipe no palco do Cine Brasília, no último sábado

O cineasta de Ceilândia Adirley Queirós é a periferia nas telas do cinema. Mas a periferia autêntica e real e não aquela cheia de maquiagem estética ou discurso fake social, como têm surgido por aí em muitos filmes do gênero desde Cidade de deus (2002). Adirley Queirós é da periferia, portanto, sabe do que está falando, dos sentimentos e problemas que pulsam à margem dos grandes centros.

Exibido na mostra competitiva do Festival de Brasília no último sábado, no Cine Brasília, Branco sai. Preto fica, seu mais recente trabalho finalizado em janeiro deste ano, novamente expõe às mazelas dessa realidade conflitante. Mas de um jeito muito diferente e original. Misturando realidade e ficção, parceria cada vez mais tênue no cinema mundial, o filme leva às telas a história de Marquim e Shockito, duas vítimas da truculência do estado, depois de serem agredidos por uma polícia racista e repressiva, durante baile de black music que o deixaram com sequelas indeléveis. O primeiro preso a uma cadeira de rodas. O segundo sem uma das pernas.

“Branco sai, preto fica”, gritava os meganhas naquela noite repressiva.

Bem, sustentado por pegada jornalística e abordagem direta, o diretor insere na trama o Branco sai preto ficaingrediente da fábula e no poder que ela tem para refletir sobre os nossos problemas e agruras, construindo a partir dessas misturas, uma trama em que as memórias desses personagens se fundem em vários gêneros e referências. “É um filme forte”, me confidenciou outro dia o cineasta Adirley, bem ao seu estilo raivoso e na defensiva.

Há ali, por exemplo, uma homenagem única ao clássico O bandido da luz vermelha, do mestre Rogério Sganzerla, materializado na figura de um herói que vem do futuro para investigar o acontecido e provar que a culpa é desse sistema omisso, violento e preconceituoso que estamos inseridos. Sim, por que Branco sai. Preto fica, também é uma ficção científica.

Como pano de fundo para essa história trágica, uma trilha sonora nostálgica marcando por clássicos setentistas da Black music e do pop romântico. Na boa, sem bairrismos e hipocrisias, até pelo contexto político em que vivemos e pela proposta política social do filme, Branco sai. Preto fica deve ser o grande vencedor da mostra competitiva do 47º Festival de Cinema de Brasília.

* Este texto foi escrito ao som de: Sex machine (James Brown – 1970)

James Brown - Sex Machine

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