Diretores – Rogério Sganzerla

O anárquico cineasta manuseando objeto de trabalho que sabia usar muito bem

O anárquico cineasta manuseando objeto de trabalho que sabia usar muito bem

Terminei a faculdade de jornalismo achando que ia ser cineasta. E uma das grandes influências que eu tive para isso foi o cinema de invenção do genial Rogério Sganzerla. Posso estar enganado, mas acho O bandido da luz vermelha (1968) um dos filmes mais instigantes que vi em toda minha vida. Sei lá, quando vi aquela mistura irônica de chanchada com nouvelle vague, Orson Welles e imprensa escrita, HQs e rádio e TV, pirei. Para mim só podia ser a coisa mais brasileira que o nosso cinema poderia ter inventado.

Irônico, explosivo, anárquico e genial, Sganzerla criou um estilo de fazer filmes à margem da indústria vigente, apostando na pesquisa audiovisual, na experimentação da narrativa e total ruptura com a estética. Eram produções totalmente independentes, realizados de forma ágil, com baixo orçamento e uma preocupação criativa revolucionária. Em seus filmes, não era importante o que iria se contar, mostrar nas telas, mas de que maneira isso seria contado e mostrado.

“Estou buscando aquilo que o povo brasileiro espera de nós desde a chanchada: fazer do cinema brasileiro o pior do mundo”, debochou numa entrevista de 1969.

Infelizmente nunca tive o prazer de entrevistar Rogério Sganzerla, mas não me esqueço do dia em que vi o cineasta no Cine Brasília, durante uma edição do Festival de Brasília em que exibiu seu último filme, o perturbador, O signo do caos (2003). Fragilizado pelo câncer que o mataria meses depois, estava cercada pela mulher Helena Ignez, musa do cinema marginal, e pelas belas filhas Sinai e Djin.

O bandidoTop Five – Rogério Sganzerla

O bandido da luz vermelha (1968) – Com apenas 20 e poucos anos, Sganzerla realiza aqui um dos trabalhos mais selvagem, poético, cafajeste e esculhambado do cinema brasileiro, com sua colagem de Godard e Orson Welles. A narrativa de rádio sensacionalista é um espetáculo pela ousadia rebelde e os personagens, deliciosamente canalhas. “Quando não se pode fazer nada a gente avacalha”, diz o personagem de Paulo Villaça.

 Copacabana, mon amour (1970) – Com trilha sonora formidável de Gilberto Gil, a fita é uma aventura espiritual e experimental a partir da trajetória de Sônia Silk (Helena Ignez), uma jovem que zanza perdida por Copacabana na esperança em ser cantora de rádio.

A mulher de todos (1969) – Na pele da “mulher mais boçal do Brasil”, Helena Ignez é a personagem-título que trai o marido bobão vivido por Jô Soares com todos os cafajestes e desajustados que encontra pela frente. A avacalhação geral norteia a trama que aposta em narrativa ousada e original.

Nem tudo é verdade (1986) – Misto de documentário e chanchada, o diretor aqui se apropria de instigante exercício metalinguístico para fazer releitura, bem ao seu estilo, da passagem de Orson Welles pelo Brasil, em 1942. Na época Welles pretendida fazer um filme que nunca ficou pronto sobre a cultura local. Arrigo Barnabé está impagável na pele do diretor e a presença de Grande Otelo na fita é enriquecedora.

O signo do caos (2003) – Último filme do diretor, a fita busca referências no cinema noir na construção de uma fábula incômoda sobre as dificuldades de se fazer cinema no Brasil de boa qualidade com baixo orçamento. “É preciso tirar o cinema do quarto de brinquedo”, ironiza um dos personagens.

* Este texto foi escrito ao som de: Copacabana mon amour (Gilberto Gil – 1970)

Gilberto Gil - Copacabana

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