Mário Quintana – A rua dos cataventos

Traquinas, irônico, terno e sensível, o poeta, com seu jeito simples e autêntico, conquistou meu coração...

Traquinas, irônico, terno, o poeta, com seu jeito simples e autêntico, conquistou meu coração…

No hospital, com o fêmur engessado, todo anestesiado e cheio de soro na veia, esparadrapo e algodão, após um atropelamento, o poeta gaúcho Mário Quintana, travesso bem ao seu estilo, faz a pergunta que não quer calar. “Anotaram o número da placa?, Mas alguém anotou o número da placa?”, indagava agitado. Mas logo o tranquilizaram, informando que o atropelador o havia socorrido e estava identificado. Impaciente, e logo desfaz o mal-entendido. “Vocês não estão entendendo. Quero saber a placa para jogar no bicho!”, disse.

Traquinas, irônico, terno e sensível, Mário Quintana, com seu jeito simples de ser e escrever, tinha aquele talento nato de falar de coisas profundas, complexas e intricadas, da maneira mais singela possível. Acho que o rei Roberto Carlos gosta e entende a cosmologia do poeta nascido em Alegrete (RS). Sim, porque ele também sabe falar de coisas profundas, complexas e intricadas, de maneira simples.

“Todos estes que aí estão/Atravancando o meu caminho/Eles passarão/Eu passarinho!”, é um dos versinhos de Mário Quintana que uso como mantra, oração, todos os dias, no meu dia a dia.

Bom, para o conterrâneo e amigo Érico Veríssimo, um ídolo em meu peito há tempos – e Cataventoagora mais do que nunca por causa daquela garota que veio do frio -, Mário Quintana era um “anjo disfarçado de homem”. E quer saber? Era mesmo. Para mim, Mário Quintana é um anjo em minha vida. E por essas e outras que vou me empenhar em ler todos os livros dele que tenho em minha estante mágica. E comecei, evidentemente, pelo primeiro do autor, A rua dos cataventos, de 1940.

Com pouco mais de trinta anos, assim como eu, um operário das redações de jornais, o jovem poeta publica seu primeiro livro com versos escritos até aquele momento, mas também revelando uma coletânea de poemas escritos ao logo da vida e escondidos em sua gaveta de sentimentos e saudades. O título é de uma nostalgia contagiante, comovente, remetendo à rua de sua vida, de sua infância, aquela em que ele espreita e a acalanta da janela aberta de seu quarto, a descrevendo com seus pregões, ruídos, agito das multidões e sossego dos telhados altos cheios de cataventos girantes.

“A rua é tratada sempre afetivamente: ele a embala como se fora uma criança, o poeta a protege no sono e a contempla durante do dia”, escreve a especialista Tania Franco Carvalhal, autora do prefácio da reedição da editora Globo de A rua dos cataventos que tenho.

E nas entrelinhas dessas memórias afetivas, já presente reflexões contundentes de questões sociais, existenciais e metafísicas que circundam nova vida.

“Minha morte nasceu quando eu nasci/Despertou, balbuciou, cresceu comigo…/E dançamos de roda ao luar amigo/Na pequena rua em que vivi”, escreve no soneto 19, de A rua dos cataventos. “Pra que partir?/Sempre se chega, enfim”, desabafa no soneto 20 do livro, citando o velho marujo Sinbad, um dos heróis de As mil e umas noites.

Citações a Edgar Allan Poe, momentos saudosistas, reflexões sociais e existenciais, inquietações metalinguísticas com relação ao fazer artístico, enfim, está tudo lá, nesse seu primeiro livro publicado há mais de 70 anos. “Quero ficar com alguns poemas tortos/Que tentei endireitar em vão…/Que lindo a eternidade, amigos mortos/Para as torturas mortas da expressão!”, diz, em conflito com o seu “Eu lírico”.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1970)

Roberto_Carlos_1970

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