Sem pena (2014)

Documentário contundente questiona o papel da justiça no Brasil

Documentário contundente questiona o papel da justiça no Brasil

Eugênio Puppo era o cara de São Paulo que sempre levava mostras formidáveis do cinema nacional para o CCBB de Brasília. E estou falando de coisas bacanas como Nelson Rodrigues e o cinema, Horror no cinema brasileiro, Cinema marginal brasileiro, além de eventos do gênero homenageando Ozualdo Candeias e José Mojica Marins, o Zé do Caixão. E foi num desses encontros que o conheci. Por isso que recebi com satisfação a notícia de que seu documentário, Sem pena, não só foi selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cinema de Brasília, como foi o primeiro filme a ser exibido no evento.

E, falando sobre o sistema de justiça no país, a fita, que entra em cartaz nos primeiros dias de outubro, infelizmente expõe na tela todos aqueles clichês que costumamos dizer sobre o assunto no país. No Brasil, onde a população carcerária é a quarta maior do mundo, a lei não é apenas cega e lenta, mas também implacável. Fora e dentro das grades. Daí o trocadilho incômodo e bem sacado do projeto que começou a nascer, em 2009, quando o diretor foi procurado pela advogada criminalista Marina Dias Werneck de Souza, na época diretora do Instituto de Defesa do Direito da Defesa (IDDD).

Sem pena 2Trazendo imagens de lugares nunca antes filmados pelas TVs ou câmeras de cinema, o filme vai do extremo da burocracia dos tribunais, passando pelos dramas dos familiares dos presos, ao umbral das cadeias brasileiras. Após cinco anos de pesquisa, filmagem e montagem, o diretor se empenhou para que seu projeto reproduzisse, sem o sensacionalismo habitual da TV e dos programas que utilizam da violência como entretenimento, as diversas situações encontradas pelos caminhos da justiça. E não só isso, que o espectador, síntese da sociedade, refletisse sobre o assunto.

Com relação à segunda questão acho que o diretor terá bom desempenho por que algumas cenas de Sem pena são incômodas e deprimentes. No final da sessão, aplaudidíssima, as pessoas saíram indignadas e assustadas com o que virão. Ou seja, que no Brasil, as leis foram feitas para privilegiar os mais fortes e que os profissionais ligados ao tema, enfim, advogados, promotores e juízes, é um bando de canalhas hipócritas e cínicos.

A cena-síntese de todo esse descaso e absurdo kafkaniano é quando uma senhora humilde tem sua dignidade vilipendiada, ao tentar se defender da acusação de traficante diante de um juiz exibicionista, uma promotora inócua e um advogado banana. Eu, que já trabalhei para órgãos do judiciário e sei a grande falácia que eles são, sai da sessão refletindo que no Brasil a gente tem medo da justiça não por que ela cumpre com seu dever, mas justamente o contrário.

* Este texto foi escrito ao som de: My people were fair and had Sky in the hair… But now they’re content to wear stars on ther browns (T-Rex – 1968)

T-Rex 3

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