Deus e o diabo na terra do Sol (1964)

Othon Bastos como o cangaceiro Corisco, uma das melhores atuações do cinema nacional

Othon Bastos como o cangaceiro Corisco, uma das melhores atuações do cinema nacional

Lançado às vésperas do golpe militar, o épico barroco, Deus e o diabo na terra do Sol, do genial cineasta baiano Glauber Rocha, é um marco na cinematografia brasileira, o símbolo máximo do movimento Cinema Novo, a obra que abriu, definitivamente, o caminho para que o cinema nacional deslanchasse de vez mundo afora, criando uma linguagem própria para as produções que estavam realizando aqui.

Passado 50 anos de sua realização, o filme ainda espanta e emociona o público pela eloquência da narrativa e presença forte de personagens criados à sombra de marcantes signos da cultura popular brasileira. Mas não só isso. Misturando John Ford e literatura de cordel, cangaço e faroeste, Euclides da Cunha e velada crítica política, Glauber cria aqui, no esplendor de seus 20, uma epifania visual e narrativa norteados por maniqueísmos gloriosos soberanos que culminam numa reflexão espiritual sobre a vida e a morte.

Bem, acho que devo ter assistido a essa fita umas dez vezes, só na faculdade umas três, mas a cada sessão sou arrebatado por nova magia, emoção e descobertas. Eis aí uma das marcas indeléveis de Glauber Rocha na vida dos cinéfilos de todo mundo. De modo que dá para imaginar a sensação única que tive de ver o filme ser exibido no templo máximo do cinema brasileiro que é o Cine Brasília. E com uma cópia tinindo de nova.

Deus“E o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”, diz um trecho da música cantada por Sérgio Ricardo.

No meio do sertão, representando diferentes segmentos da sociedade, três personagens vividos por atores magnânimos norteiam a trama de forma imperiosa e poderosa. Um deles é o vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey), um autêntico sertanejo indeciso na vida que não sabe se apega ao messianismo cego do Santo ou ao radicalismo iconoclasta do cangaço. O outro é o matador de cangaceiros Antônio das Mortes, Maurício do Valle na pele de um fora da lei genuinamente brasileiro defendo os interesses da elite. E por fim, ícone da rebeldia civil, está a figura imponente e impressionante de Corisco, numa atuação inesquecível do ator baiano Othon Bastos.

Aliás, sem medo de ser feliz digo que, depois do personagem Paulo, no drama São Bernardo, de Leon Hirszman, eis aqui não só uma das melhores atuações de Othon Bastos, mas uma das melhores do cinema nacional. Simplesmente mediúnica a sequência em que, com a câmera fechada em seu rosto, o ator dá vida, sem cortes e firulas visuais, segurando a cena apenas na interpretação, Lampião e Corisco. Icônica a imagem imortalizada no cartaz do filme pelo artista Rogério Duarte.

Graças à beleza cênica cinematográfica como essas que o diretor Glauber Rocha deve sempre ser lembrado, reverenciado e apresentado às novas gerações. Viva o cinema brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: A noite do espantalho (Alceu Valença – 1974)

A noite do espantalho

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