Medo do desprezo mais do que de tudo

Tenho medo do desprezo mais do que da morte porque ele faz doer, deixa marcas indeléveis...

Tenho medo do desprezo mais do que da morte porque ele faz doer, deixa marcas indeléveis…

Medo. A coisa que eu mais tenho medo na vida é do desprezo. Sobretudo desprezo de quem a gente gosta. Aliás, ser desprezado por alguém que a gente gosta é o pior dos castigos.

Sim, para quem fica há aquele vazio abstrato, mas para quem vai não acontece nada. O desprezo deixa cicatrizes indeléveis. E houve uma garota que me fez chorar lágrimas de sangue por causa de seu desprezo infantil. Ainda bem que isso agora é página virada, pelo menos virtualmente falando, porque lá dentro de mim essas lembranças cinza são como sombras e pesadelos. Cicatrizes indeléveis…

E de repente, mas do que de repente, eis que do nada, surge outra garota vindo de um passado fantasmagórico com seu nariz de princesa da Disney e sorriso que me deixa com água na boca. Sim, ela tem um sorriso que me deixa com água na boca. E com aquelas duas pintas em cada canto da boca que me enfeitiçam como se eu tivesse bebido absinto num longínquo século 19. Então resta saber: é ela minha fada verde? E eu que estou longe de ser Peter Pan… Às vezes me sinto como um Rimbaud despedaçado. Com a diferença de que mais velho, mais gordo e com menos talento poético…

AbsintoEntão naquela noite ela brilhou entre celebridades do meio político com seu sex appeal cheio de ingenuidade e delicadeza. Como manter a humildade e delicadeza diante de tanta animosidade e canalhice. Quatro leões da pilantragem rosnando hipocrisias e promessas caducas ao vivo e ela, tal qual um anjo de pecado e desejo, com sua blusa de seda negra escondendo um picante sutiã rubro, se mostra serena, leve e solta. Nas entrelinhas do poder, ela é um sopro de leveza e candura.

De longe, como um espectador atento e zeloso, me preocupava, cheio de medo com as idas e vindas dela descendo e subindo a escada do palco desse espetáculo do ridículo. E se ela caísse? Alguém iria ampará-la, segurá-la nos braços como uma amante de trama de Shakespeare? E eu do outro lado da rua, tão perto e tão longe – assim como na canção do U2 – sem poder fazer nada, me angustiando com possíveis imbróglios logísticos, com o que não precisava se preocupar.

No final deu tudo certo. Ela foi embora para o seu merecido ninho de descanso e eu ainda continuo perdido aqui, prisioneiro dos meios desejos mais recônditos. No dia seguinte, com voz embargada, liguei para ela só para dizer que foi emocionante vê-la e ouvi-la na TV, tal qual Daniel na Cova dos leões diante daqueles quatro crápulas e ela me atendeu tão doce, com sua voz melíflua do outro lado da linha. Quando desliguei o telefone chorei copiosamente. Mas não lágrimas de sangue e sim de uma felicidade redentora.

* Este texto foi escrito ao som de: Love love love (Glass Candy – 2003)

Glass candy

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