Vida de cinema – Cacá Diegues 2

Assim como no cinema, Cacá nos brinda com histórias marcantes em sua autobiografia

Assim como no cinema, Cacá nos brinda com histórias marcantes em sua autobiografia

Cineasta de respeito, Cacá Diegues, um dos expoentes do Cinema Novo, sempre teve boas histórias para contar no cinema e na vida real. Na telonas nos brindou com obras mágicas como Bye, bye Brasil (1979) e Quando o carnaval chegar (1972), que já vi e revi zilhões de vezes no Canal Brasil e DVDs. Na vida real, já tive o prazer de conversar duas vezes com ele. Uma pelo telefone e outra pessoalmente, junto com José Wilker, na ocasião do lançamento de O maior amor do mundo (2006). Gosto de sua voz cavernosa, arrastada, serena e leitosa. E, sobretudo, gosto de ouvi-lo contar suas histórias marcadas por acontecimentos formidáveis.

Agora, com o lançamento de sua autobiografia, Vida de cinema, que estou saboreando há dias, novas, surpreendentes e deliciosas histórias sobre a vida cultural brasileira dos anos 50 até os dias atuais surgem como formidáveis drops do passado a partir de observações generosas, reflexivas e cheia de nostalgia do autor.

Cinco vezes favelaA narrativa é envolvente, cheia de episódios ricos que ajudam a explicar o contexto em que surgiu, por exemplo, o Cinema Novo no Brasil a partir da euforia de jovens amantes do cinema. Assim como muitos de seus pares, Cacá se formou em direito, mas graças ao surgimento do neo-realismo de Roberto Rossellini na Itália, e da nouvelle vague na França, pode dar asas ao sonho de se tornar cineasta.

O primeiro projeto que realizou foi o curta, Escola de samba alegria de viver, para o seminal projeto cinematográfico brasileiro, Cinco vezes favela. “Generosa intervenção política de cinco jovens de classe média (…), Cinco vezes favela estava longe de ser fiel ao cotidiano das favelas e o que pensava seus moradores, que, de modo geral, não se reconheceram no filme”, avalia o diretor, olhando na poeira do tempo. “Mas o gosto de falar do país, o gosto do risco, a procura de um estilo original, o modo de fazer de sua produção, as tendências diversas em busca de uma expressão autoral, fizeram do filme um fiel anunciador do que seria o Cinema Novo”, continua.

No livro, o autor explica como a figura paternal de Nelson Pereira dos Santos foi determinante para sedimentar o movimento no país e como o sucesso de filmes como Vidas secas, Os fuzis e Deus e o diabo na Terra do Sol, do genial Glauber Rocha, no festival de Cannes, no início dos anos 60, revelou ao mundo os novos talentos do cinema no Brasil. As histórias de bastidores da passagem da turma brasileira são hilárias.

Sem dinheiro e pela primeira vez no velho continente, Cacá conta, por exemplo, que dividiu um minúsculo apartamento com Glauber Rocha na Place d’Italie, onde o anfitrião não o deixava dormir batucando uma máquina de escrever madrugada adentro completamente pelado. Lembra com irreverência também o embaraçoso episódio da escadaria em Cannes, na ocasião da exibição de seu primeiro longa, Ganga Zumba, em mostra paralela do evento, por conta de uma confusão cultural de línguas, quando Glauber (sempre ele), exaltado, gritava seu nome arrancando estrondosas gargalhadas da plateia. “Em francês, com em outras línguas, meu apelido (Cacá) é a forma coloquial de nomear cocô, merda, bosta”, recorda emendando. “Aquela noite foi determinante para minha decisão de nunca assinar nada na vida com o meu apelido, fora do Brasil.”

* Este texto foi escrito ao som de: Quando o carnaval chegar (Chico Buarque, Maria Bethânia e Nara Leão – 1972)

Quando o carnaval chegar

 

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