A utilidade de um revisteiro (2013)

Às vezes no cinema não basta ser simples, tem que ser diferente

Às vezes no cinema não basta ser simples, tem que ser diferente

Um dos destaques da mostra competitiva do Festival Internacional de Cinema de Brasília, a comédia argentina, A utilidade de um revisteiro, é um daqueles típicos filmes em que dividem plateias pela originalidade da narrativa. E neste caso aqui a opinião do público após o fim da sessão, gostando ou não, foi quase que unânime: diferente. Mas um diferente sem firulas ou exageros técnicos, um diferente simples que chega a ser incômodo.

Com roteiro e direção de Adriano Salgado, a história tem como premissa o encontro de trabalho entre uma cenógrafa de teatro e uma aspirante à assistente. Até aí tudo bem, não fosse o fato de a câmera, em nenhum momento, sair do lugar. Estática, como se fosse o olho do espectador diante da ficção que se desenrola nas telas, ela e os móveis e objetos de um pequeno apartamento cheio de goteiras são testemunhas desse encontro marcado por diálogos absurdos, desconcertantes e às vezes dramáticos.

A personagem de María Ucedo, a cenógrafa descolada e experiente está disposta e aberta a ouvir e entender os anseios da jovem vivida por Yanina Gruden. A conversa começa descontraída, depois ruma para algo mais profissional e, quando damos conta, o bate-papo já virou um drama mexicano com direto a reflexões relacionamento a dois, goteiras e até sexo anal. A cena da banana é hilária.

Embora tenha tudo para ser chato e maçante, o filme não é nem um pouco das duas coisas e graças à maestria do diretor432804 de conseguir prender a atenção do espectador de forma divertida acreditando, sobretudo, na força da palavra, ou seja, nos diálogos insólitos que vão surgindo um atrás do outro numa sequência de fatos e temas. Simplificando, A utilidade de um revisteiro é um filme de palavras, elemento que anda banalizada em boa parte da cinematografia mundial.

E ao optar por essa abordagem, digamos, diferente, o jovem cineasta Adriano Salgado trabalha e faz despertar no espectador elementos cognitivos inerentes como a audição, a percepção mais aguçada do olhar e, claro, a imaginação. Afinal, o que esconde atrás daquela parte da casa em que não vemos em sua plenitude?

Outro elemento interessante que perpassa nas entrelinhas do filme é uma velada, diria que até silenciosa discussão, sobre o “fazer” do cinema, com sua ousada construção narrativa. Importa não apenas o que se passa nas telas, mas de que forma isso é contado e aqui tudo de desenrola de maneira, aparentemente despretensiosa, mas entre essas duas personagens e as quatro paredes, acontece de tudo.

Bom, às vezes no cinema não basta ser simples, tem que ser simples e diferente.

* Este texto foi escrito ao som de: Esperando el fin do mundo (Rubin – 2006)

Rubin

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