A garota que veio do frio

Ela tem um sorriso enigmático e olhar de ressaca de Capitu...

Ela tem um sorriso enigmático e olhar de ressaca de Capitu… E fala espanhol bem…

A garota que veio do frio tem um sorriso enigmático e olhar de ressaca de Capitu. Talvez por isso goste mais de Machado de Assis do que de Érico Veríssimo, escritor que é da sua terra. Encantadora, a garota que veio do frio não mora mais em Porto Alegre, mas na São Paulo desvairada dois dias de hoje e, por isso, mesmo, seu sotaque do sul quase não existe.

A garota que veio do frio não gostou do filme argentino que vimos ontem, em lados opostos da sala do Cine Brasília, mas falou com desenvoltura de Ingmar Bergman e o seu cinema da alma. Eu disse que, com toda a simplicidade cênica e simbólica, preferia O sétimo selo. Ela me surpreendeu dizendo que gostava mais de Gritos e sussurros, a agônica obra sobre três mulheres fantasmagóricas perdidas numa casa de cores flamejantes.

A garota que veio do frio declarou para mim seu amor à obra, Lavoura arcaica de Raduan Nassar, e que a versão cinematográfica do livro é uma das melhores coisas do cinema contemporâneo moderna. Concordei com a última colocação e fiquei com vergonha de nunca ter tirado da minha estante a edição do livro do escritor paulista que comprei recentemente. Prometi ler o livro logo e comentar sobre ele com ela, mas para diminuir minha vergonha, disse que tinha entrevistado o Luiz Fernando Carvalho na época da exibição do filme no Festival de Brasília. Ela parece não ter ficado tão impressionada.

Lavoura arcaicaA garota que veio do frio fala um espanhol impecável, tão bem quanto o espanhol da atriz norte-americana Geraldine Chaplin, que eu nem sonhava que falava a língua de Cervantes. E Achei bonitinho quando ela disse que estava “yo llorando cá”, quando ouviu da filha do mestre da pantomima, sobre a primeira recordação que ela tinha do pai, que a pegou no colo, com dois, três anos de vida, para mostra a neve. Quase que pedi, inspirado no filme Sabrina, para que ela me ensinasse, não em francês, mas na língua de Cervantes, como é que se diz: “Estou olhando para o que eu quero”.

A garota que veio do frio me encantou com o seu jeito meigo de ser e sorriso enigmático e já estou com um aperto no peito porque logo, logo ela vai embora e não sei se vou vê-la tão cedo. Ela não voltará para o sul do inverno, onde ela nasceu, mas para a São Paulo desvairada dos dias modernos e me preocupo com ela perdida naquela selva de pedra que a metrópole paulista.

Queria ir embora com a garota que veio do frio e não apenas porque o inverno de onde ela veio me aquece, mas porque ela me parece ser alguém que, assim como um filme de Chaplin, vale à pena. De repente, me deu vontade de ouvir She’s a lady do John B. Sebastian.

* Este texto foi escrito ao som de: John B. Sebastian (1970)

John B. Sebastian

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