“Não sou uma estrela, sou uma atriz que trabalha”

Simples, Geraldine quebrou protocolos com seu jeito Chaplin de ser…

Simples, Geraldine quebrou protocolos com seu jeito Chaplin de ser…

Há uma imagem de infância que persegue a memória da atriz Geraldine Chaplin até hoje. Era quando ela tinha dois ou três anos, em Los Angeles, e seu pai, o grande mestre Charlie Chaplin, a acordou no meio da noite para mostrar a neve no jardim da mansão da família. “Ele me pegou em seus braços e ainda me lembro do cheiro de seu corpo e do silêncio da neve”, contou a artista, em entrevista que fiz, ontem, na sala 4 do Liberty Mall, durante o Festival Internacional de Cinema de Brasília (BIFF). “No outro dia, quando acordei, não tinha neve nenhuma, não tinha nada”, disse perplexa, sem saber se tudo não passou de um sonho ou se ainda é uma longínqua recordação perdida de um passado distante.

Momento mágico esse que tive oportunidade em minha carreira. Fiquei encantado com os grandes olhos azuis brilhantes dela, olhos penetrantes, cheios de vida. Divertida, carismática e de uma simplicidade constrangedora, Geraldine vem encantando a todos em sua passagem pela capital brasileira com um jeito Chaplin de ser. Sem cerimônias, perita em quebrar protocolos, ela faz questão de conversar com todos que a abordam, de público a imprensa. E o motivo de tamanha entrega e consideração, diria até que devoção tem explicação. “Não sou uma estrela (risos), sou uma atriz que trabalha e é difícil ser uma atriz que trabalha”, ironizou, quando perguntei sobre sucesso.

Aos 70 anos de idade, 62 deles dedicado ao cinema e aos palcos, Geraldine contou que deixou de ser bailarina para ser atriz porque não tinha vocação para a dança. E que nunca se importou com o fato de ser filha de Charlie Chaplin. “As pessoas dizem que ele foi uma sombra em minha vida e que maravilhoso que tenha sido, abriram se muitas portas para mim”, comentou pragmática.

Falando um espanhol impecável, melhor que o meu português ruim, o que possibilitou que eu entendesse tudo o que elacharlie_chaplin_scomposition_by_pietrocastagna-d4v2gti falou, claramente, a atriz confessou que não conhece muito sobre o cinema brasileiro, mas que não esquece o dia em que viu pela primeira vez, na Espanha, o filme Antônio das Morte (título internacional para O Dragão da maldade contra o Santo Guerreiro), do baiano Glauber Rocha. “Foi muito chocante, aquele filme me golpeou visualmente, ele era um gênio louco”, lembrou emocionada, revelando, bem à vontade, que chegou a fumar haxixe com o amigo, na época de sua passagem por Madri, acompanhado de uma namorada francesa. “Não lembro o ano, mas foi durante um festival”, destacou.

Outro momento surpreendente foi quando, orientado pelo amigo Ulisses, perguntei sobre sua experiência de filmar com o boliviano Jorge Sanjinés, nos anos 90, o drama Para recibir el canto de los pájaros. “Jorge sanjinés é um ídolo, sou encantada por ele desde que vi, nos anos 60, O sangue do Condor”, revelou suspirando. “Foi uma experiência filmar com ele a 5 mil metros de altura”, recordou.

Na noite de abertura do BIFF, na última quinta-feira, no Cine Brasília, palco de grandes momentos presenciados por mim, como esse, Geraldine Chaplin reviu emocionada, Luzes da ribalta (1952), filme que marcou sua estreia nas telonas aos nove anos de idade, sob a direção do pai. “Ele foi um artista único e ele mesmo dizia isso”, me revelou convicta. “Luzes da ribalta é um filme triste, porque fala sobre o terceiro ato da vida”, salientou.

Depois desse encontro formidável, fui embora feliz da vida, com a alma mais leve que uma pluma e com o coração cheio de humanismo e esperança, assim como os filmes do Chaplin.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1966)

Roberto Carlos - 1966

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