Cacá Carvalho e as máscaras de Pirandello

Na peça, o ator "dá vida" a um morto rabugento

Na peça, o ator “dá vida” a um morto rabugento

O ator paraense Cacá Carvalho é um autêntico homem de teatro, um animal em extinção dos palcos do naipe de um Antônio Abujamra ou Sérgio Britto. Quem já viu o artista desfilando com desenvoltura em cima de um tablado dando vida aos mais fascinantes personagens e textos de consagrados nomes do teatro, entende o que estou dizendo. E eu que só o conhecia do cinema e da televisão, onde interpretou o marcante Jamanta.

Pois bem. Com quase 50 anos de carreira e 61 anos de vida, o artista foi uma das atrações do Cena Contemporânea deste ano com três montagens tendo como enredo a dramaturgia do italiano Luigi Pirandello: O homem com a flor na boca, Umnenhumcemmil A poltrona escura, que conferi ontem no Teatro Garagem.

E, sendo bem sincero, admito que não gostei do monólogo, chato, modorrento e cansativo. Mas me amarrei na atuação visceral, extravagante, às vezes caricata e histriônica do ator que parece ter entrado em transe a partir do momento em que as luzes se apagaram no espaço. Pode parecer uma contradição o que digo, mas uma coisa é o texto. Outra bem diferente é a atuação. E uma terceira o ator consegui cativar a atenção da plateia, mesmo que o texto não seja simpático e agradável aos ouvidos do público.

Em cena, ele “dá vida” a um morto indignado com sua condição de defunto. É mais um desses macabros e insólitos textos do siciliano Pirandello, autor que faz pauta do absurdo para discutir de forma lúdica, infantil e cruel a condição humana em todos os seus meandros. Isolado no meio do palco, desde o início esse estranho personagem apresenta sua mórbida condição ao espectador, entrelaçando momentos conturbados da época em que ainda respirava ao lado de amigos, Cena contemporâneafamiliares, vizinhos estressantes, estranhos e de uma estimada cadelinha.

“O que é a vida? Basta um sopro e tudo acaba”, filosofa com amargo pragmatismo.

Há 20 anos mergulhado de corpo e alma na dramaturgia de Pirandello, em projetos realizados no Brasil, mas, sobretudo na Itália, onde tem reconhecimento e espaço para desenvolver seus projetos cênicos, Cacá Carvalho reúne em A poltrona escura, três das 277 novelas escritas pelo autor italiano: Pés na grama, O carrinho de mão e O sopro. “Pirandello é um autor que habita dentro de nós de várias maneiras. Isso deve acontecer sempre”, disse o ator em entrevista.

Pode até ser, mas não consegui perceber essa presença quase que onipresente do dramaturgo em A poltrona escura. Na verdade, eu esperava que fosse encontrar uma adaptação difícil de assimilar, até pela experiência que tive com o único texto teatral de Pirandello que li na vida, o formidável, Seis personagens em busca de um autor, mas não pensei que fosse me decepcionar tanto. E não só eu, já que dezenas de pessoas abandonaram o teatro antes do fim da sessão.

Depois dessa experiência traumática nem tive vontade de ver as outras adaptações do ator e sua equipe para textos de Pirandello. Contudo, saí da sessão com duas convicções: a de que preciso conhecer mais obras de Pirandello e que Cacá Carvalho é um ator soberbo.

* Este texto foi escrito ao som de: Flaming pie (Paul McCartney – 1997)

Flaming pie

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s