Diretores – Orson Welles

O gênio indomável, na época em que tocava o terror nas rádios de Nova York

O gênio indomável, na época em que tocava o terror nas rádios de Nova York

Era, batata. Nos anos 30, quando uma ambulância ensandecida atravessava as ruas de Nova York, poderia ser tanto um caso urgente de vida ou morte ou também o jovem Orson Welles repassando os textos que escrevia e interpretava nas rádios da cidade que o assediavam implacavelmente. Para que ele chegasse a tempo de honrar os compromissos, as emissoras acordaram nesse estratagema bizarro. E lá ia ele, de uma estação à outra, ao som de uma sirene barulhenta, revisando adaptações radiofônicas para clássicos de Shakespeare ou obras modernas de então como Guerras do mundo que, para o bem e para o mal, causou tanta confusão, estardalhaço e sucesso na época entre os ouvintes, que o levaria a filmar, pouco tempo depois, com apenas 25 anos, um dos clássicos do cinema, a obra-prima Cidadão Kane.

Gênio precoce, estrela dos teatros da Big Apple que virou a sétima arte de ponta cabeça, Orson Welles foi um autodidata criativo das artes que assombrou a todos com a ousadia narrativa de suas tramas e rebeldia irresponsável com que as colocavam em ação. Talvez por isso, ainda tão jovem, ele tenha incomodado tanta gente e, antes de completar 40 anos, já era considerado nas ruas de Hollywood, um has-been, ou seja, aquele que já era. Pura inveja ou despeito, o que era uma pena.

Ídolo máximo dos cineastas brasileiros Glauber Rocha e Rogério Sganzerla – outros dois gênios precoces do cinema -, Orson Welles será para sempre uma referência no cinema não apenas pelo monumental Cidadão Kane, um filme que seria um divisor de águas na moderna cinematografia mundial, mas pela abusada afronta com que desafiou os dogmas puritanos da Meca Hollywood, onde certa vez disse que se tratava de um parque de diversões. “Comecei por cima. Desde então venho me esforçando para me decair”, ironizou certa vez.

Ah, sim, e Norman Mailer, de quem achava que não entendia nada do assunto, disse certa vez: “A humanidade nunca produziu um homem mais bonito que o jovem Orson Welles em Cidadão Kane”.

Top Five – Orson WellesOthello

A marca da maldade (1958) – Remando contra a maré e contrariando os clichês, escolho como trabalho máximo desse gênio incompreendido das artes esse clássico do cinema noir que um registro desconfortante sobre a corrupção generalizada na fronteira do México com os EUA. A cena de abertura com o antológico plano-sequência é um sundae.

Cidadão Kane (1941) – Esse eu vi na faculdade com ares de deslumbramento com que tanto arrebatou seus admiradores em todo o mundo. Realista, original, criativo e ousado em todos os aspectos, do roteiro ágil à produção impecável o filme, com seus maneirismos narrativos, perfaz, em flashback, a trajetória de um magnata da imprensa. No papel-título, Welles já mostrava que, além de diretor brilhante, era também um ator excepcional. Mas afinal, alguém aí descobriu que segredos escondem atrás de “rosebud”?

Othello (1952) – Filmado com dificuldades na Itália e no Marrocos, só mesmo a mente brilhante de Welles para narrar a tragédia de fúria, ciúme e assassinato do mouro Othello a partir de um mundo perturbador de sombras angustiantes, perturbadores corredores sombrios e efeitos visuais abstratos incômodos.

A dama de Shangai (1946) – Casado com a atriz na época, Welles causou escândalo ao obrigar a bela ruiva femme fatale Rita Hayworth usar cabelos curtos e louros para interpretar a mulher de um aleijado nesse filme noir marcado por reviravoltas fascinantes. A antológica cena final do espelho ainda é uma das mais lembradas pelos cinéfilos.

Macbeth (1948) – Obcecado por temas como traição, ambição e poder, o diretor mais uma vez transforma seu inferno financeiro na produção em obra-prima, com a história do perturbado monarca Macbeth. Figurinos estilizados e sombrias paisagens lunares dão conta dessa versão expressionista de clássico texto de Shakespeare. Mas ainda acha a adaptação de Roman Polanski a melhor.

* Este texto foi escrito ao som de: Venus and Mars (Paul McCartney – 1975)

Venus and mars

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