Cacá Diegues – Vida de cinema

O cineasta narra sete décadas de vida numa narrativa fluente e marcada de grandes episódios

Cineasta narra trajetória numa narrativa fluente e marcada de grandes episódios

Tive oportunidade de entrevistar o cineasta Cacá Diegues umas duas ou três vezes. Uma delas pessoalmente, aqui em Brasília, na época do lançamento do filme O maior amor do mundo (2006), junto com o ator José Wilker. Foi uma experiência tão marcante que acabei me empolgando e dando quatro estrelas para o filme que, ao rever outro dia, não merecia mais do que três.

Um dos nomes mais importantes do cinema nacional, o artista de 74 anos tem muito que contar e o fez recentemente ao escrever a autobiografia Vida de cinema – Antes, durante e depois do Cinema novo, um catatau de mais de 600 páginas lançada pela editora objetiva. Sincero, autêntico e reflexivo, o livro traz passagens interessantes sobre a história do cinema no Brasil e da vida pessoal do diretor narradas de forma bem deliciosa.

“É perigoso olhar para trás. Quando Orfeu o fez, Eurídice virou estátua de sal. A mulher de Lot, fugindo de Sodoma, também olhou para trás e teve a mesma sorte. O ruim do passado é que ele não pode ser mudado; o bom é que ele já passou”, filosofa no prefácio da obra. “Esse livro não pretende provar nada. Ele é uma espécie de almanaque, em que, se você quiser, pode pular parágrafos, capítulos, partes, páginas. Fique à vontade, leia só o que lhe interessa”, avisa.

Cacá diegues 2Mas difícil de ficar alheio a cada detalhe da história e trajetória escrito por esse alagoano de alma carioca, dono de uma voz elegante e cativante. Até porque, com mais de sete décadas de vida, dá para imaginar o que o cara viu, presenciou, fez e deixou de fazer. Dividido em sete partes, cada uma representando uma década de vida do autor, Vida de cinema é um relato simples e direto. Para facilitar a vida do leitor, Cacá Diegues resolveu narra sua caminhada em pequenos e leves drops temático que lemos com a doçura de comer um brioche.

No subtítulo do livro o diretor expõe um detalhe relevante, a divisão de sua vida, como que num divisor de água, em antes e depois do Cinema Novo, importante movimento cinematográfico do qual fez parte no início dos anos 60 ao lado de mestres como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra. Acredito que essa parte do livro será a mais importante para mim.

No momento, estou na fase dos primeiros anos de vida do cineasta, quando ele ouvia história de escravos das empregadas da família, de quando foi de sua querida Alagoas para o bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, dos tempos de moleque no respeitado colégio Santo Inácio, época de grandes descobertas como os livros, o sexo, o cinema, enfim, a vida. “Eu devia ter uns 5 para 6 anos quando fui pela primeira vez ao cinema, em Maceió”, recorda. “(…) Não tenho ideia de que filme estava passando naquela tarde no cinema São Luiz, mas lembro de largos espaços e figuras majestosas, com jeito de reis e rainhas, cenografias e figurinos que, muito mais tarde, identifiquei aos de Ivan, o terrível”, detalha, com a leveza de uma boa narrativa nos cinemas.

* Este texto foi escrito ao som de: Quando o carnaval chegar (Chico, Nara leão & Maria Bethânia – 1973)

Quando o carnaval chegar

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