Roberto Carlos – Na paz dos meus ouvidos

A habilidade e sutileza da dupla em explorar temas sentimentais, faz com que suas canções sejam tão perenes

A sutileza da dupla em explorar temas sentimentais, faz com que suas canções sejam  perenes

Amigos é a mais pura, crassa e hedionda verdade. Outro dia, revendo uma entrevista do rei Roberto Carlos no Jô Soares, me dei conta do quanto gosto do cara. De quanto gostava no passado e de como suas canções escritas junto com o irmão camarada Erasmo Carlos, habitam o mais recôndito do meu inconsciente, da memória afetiva do povo brasileiro. E de como a voz dele, até hoje, é inigualável, inimitável, única.

Esqueça que nos últimos anos ele é um velho chato e ranzinza cheio de manias, toques, Maria e Jesus e que um dia foi brasa, máquina quente, com a razão no que diz quando o assunto são as coisas do coração. Eu sei, é muito triste esse episódio dele envolvendo a proibição da biografia, mas fazer o quê se nossa majestade o rei Roberto Carlos acha que está com razão. O tempo é o senhor da razão e ele verá isso. Ou não verá.

O fato é que redescobrir as canções de Roberto, as canções que ele fez para gente e me sinto assim, flutuando as nuvens. E o disco do momento, aquele que não sai da minha vitrola sentimental é um de 1972 intitulado, simplesmente, de Roberto Carlos. É aquele com a capa branca com ele e seus longos cabelos cacheados que estão debaixo dos caracóis de nossos corações e ouvidos. Na paz dos meus ouvidos. Lembro que a capa do disco está muito associado, em minha memória, ao sucesso gospel daquele ano, A montanha. E, de mais a mais, os melhores trabalhos do rei são os da década de 70.

Um dos detalhes que me chama atenção nesse registro é a maturidade das letras, nada daquele clima juvenil e alegre das canções da Jovem Guarda. Aliás, desde o álbum de 1966 que o artista vinha sinalizando para essa tendência. O disco seguinte, Roberto Carlos em ritmo de aventura, um dos primeiros bolachões do cantor capixaba que comprei só por causa do hit Quando, diria que seria o divisor de águas dessa sua nova fase que começaria.RC

Roberto Carlos (1972) já nos pega de surpresa logo na primeira faixa com a reflexiva À janela, canção que fala de um rapaz que pensa em sair de casa e que enfrenta dificuldades na relação familiar. A simplicidade com que a dupla, Roberto e Erasmo, expõem o tema é comovente. “Meu pai me dá conselhos/Minha mãe vive falando sem saber/Eu tenho os meus problemas e, que às vezes, só eu posso resolver/(…) Coisas da vida/choques de opiniões…”, arremata no refrão pragmático.

Você é linda é uma declaração de amor à beleza das mulheres grávidas e ao ouvir a canção, admito que eu quase reavaliei meu conceito com relação ao assunto, já que são raras as mulheres grávidas que acho bonita. A distância, um clássico da dupla, a dor de não estar ao lado da mulher amada e descrito por um lirismo quase cafona, sobretudo pelo imponente arranjo de cordas, mas até as canções bregas do rei são geniais. “Eu só queria lhe dizer que eu/Tentei deixar de amar não consegui/Se alguma vez você pensar em mim/Não se esqueça de lembrar que eu nunca te esqueci”, diz ele, numa estrofe que não canso de ter vontade de grita para minha garota do sorriso mágico.

A diversidade de temas explorados por Robertão e Erasmo e habilidade e sutileza com que eles contaram essas histórias ao longo da carreira, faz com que suas canções sejam tão perenes. A divertida, Quando as crianças saírem de férias, por exemplo, é o desabafo de um casal que, sufocado pelas obrigações da vida doméstica, quando o pai chega do trabalho e encontra a turma animada, atacando de xerife e home do espaço, não conseguem mais se amar. “Quando as crianças saírem de férias /Talvez a gente possa então se amar um pouco mais”, sonha.

Última faixa dessa pérola dos anos 70, Agora eu sei, composição de Edson Ribeiro e Helena dos Santos, chama atenção ao arranjo folk psicodélico, mostrando que não só de canções românticas se faz o repertório do rei.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1972)

Roberto Carlos

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