O desprezo (1963)

O mestre Fritz Lang, não atrás das câmeras, mas diante dela, na pele de si próprio

O mestre Fritz Lang, não atrás das câmeras, mas diante dela, na pele de si próprio

Fritz Lang anda bastante na moda em Brasília nos últimos dias com a mostra em sua homenagem que acontece até o dia 27 de agosto no Cine Brasília. Mas há muito tempo atrás o franco-suíço anarquista Jean-Luc Godard o havia reverenciado em um dos filmes mais importantes da nouvelle vague, o metalinguístico O desprezo, que revi outro dia com um misto de surpresa e encantamento.

Baseado em livro do italiano Alberto Moravia, o filme traz o fim de um relacionamento conjugal tendo como pano de fundo as dificuldades na realização de um grande projeto cinematográfico tendo à frente, veja você, ninguém menos do que Fritz Lang. É o grande mestre na pele de si mesmo e basta dizer que a atuação dessa lenda do cinema foi supimpa.

Aqui ele anda às turras com o produtor mercenário Jerry Prokosch (Jack Palance e performance igualmente soberbo), que quer fazer uma adaptação popular para as telonas do poema épico de Homero, Odisséia. Para tanto, ele contrata o dramaturgo Paul Java (Michel Piccoli) para realizar a empreitada, mas cinema não é muito sua praia. De modo que só topa embarcar nessa canoa furada interessado nos US$ 10 milhões de dólares que vai ganhar para acabar de quitar as prestações de seu luxuoso apartamento.

O desprezo 2Enquanto o projeto não sai do papel, ele leva uma vida insossa com a mulher Camille, a deliciosa Brigitte Bardot em cenas de nudez picantes logo no começo da fita. A relação dos dois não anda muito bem e a situação do imbróglio na realização desse filme confuso surge em cena como uma metáfora do que eles vivem entre quatro paredes. Uma das cenas marcantes do filme é quando o casal discute a relação numa longa conversa existencial e angustiante.

“O cinema substitui um mundo por outro mais em harmonia com nossos desejos”, ensina o teórico André Bazin, em total harmonia com as ideias do diretor da fita.

Um filme dentro de um filme, O desprezo, antes de tudo, é Godard fazendo filme americano no melhor estilo Hollywood, com cinemascope e tudo, mas mesmo assim, na essência, um filme do Godard, o que faz toda uma diferença.

A cena mágica para mim são os minutos iniciais da fita, quando uma câmera acompanha lentamente a caminhada de uma personagem por uma rua deserta, até chegar ao final da reta mirando a lente para o espectador, como que sugando ele para dentro da trama que irá se desenrolar.

Quando Godard convidou Fritz Lang para fazer o filme, o diretor de Metropolis relutou a princípio. Ficou admirado que o jovem diretor soubesse mais sobre os seus trabalhos do que ele próprio, mas pediu que desse uma lida, primeiro, na novela de Alberto Moravia antes de dar uma resposta definitiva. No final, declinou do convite, argumentando que o papel do cineasta alemão que faria na fita, “era um nazistóide idiota”, lembraria anos depois.

A reposta do jovem diretor foi mais do que convincente. “Não quero que você interprete o personagem do livro. Quero que você interprete Fritz Lang”, disse.

Para sorte nossa, deu certo.

* Este texto foi escrito ao som de: Gal Costa (1969)

Gal Costa

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