No tempo das missivas…

Sou de um tempo anti whatsapp, ou seja, de quando besuntava selo para pregar em cartas

Sou de um tempo anti whatsapp, ou seja, de quando besuntava selo para pregar em cartas

Como diria o velho Rubem Braga, sou de um tempo em que a geladeira era branca e o telefone era preto, embora o aparelho lá em casa fosse de uma cor bem diferente até para os padrões de hoje. Era do tipo assim, como posso dizer… Verde água “chegay” e nunca mais vi um similar na minha vida. Mas disse isso só porque outro dia me dei conta de que sou de um tempo em que escrevia cartas para as pessoas com direito a besuntar o selo com cuspe e postar a correspondência, não numa janela virtual, mas no correio, que ficava a minutos de casa. Para ser bem sincero, bem na esquina da minha rua.

De modo que ando assustado, de saco cheio mesmo de ver tanta gente com a cara fuçada no celular, comunicando-se sabe lá com quem a toda hora, o tempo todo. E esse quem se resume a todo mundo ao mesmo tempo. Ou seja, no final das contas o sujeito conversa com deus e o mundo e não fala com ninguém. Fica só no superficial, no blá, blá, blá desnecessário. Por isso que uma colega minha me tratou como se eu tivesse lepra ou fosse de outro planeta quando disse que não tinha, não sabia usar e não queria conhecer esse tal de whatsapp.

Pois bem, instalei essa porcaria no meu celular e não mudei nada, continuo o mesmo cara de sempre. Com a diferença de que agora, de quinze em quinze segundos, o meu celular fica assobiando como se fosse um papagaio de mão.

No meu tempo, e isso já faz um bom tempo mesmo, o gostoso era sentar diante de uma Cartas 2escrivaninha e, com lápis e papel na mão, rascunhar uma missiva para um amigo querido, tecer palavras de amor para aquela namoradinha que tanto nos deixava com o coração aos pinotes ou ainda matar a saudade com um parente distante que só víamos uma vez por ano e às vezes nem isso. Hoje em dia, se brincar, a garotada nem deve saber o que é um lápis. Isso porque tudo é feito na ponta do dedo e com uma rapidez de ninja de desenho animado.

Pior, com as novas tecnologias, acho que as pessoas esqueceram o real sentindo da palavra saudade. Sim, porque tudo agora está próximo, as distâncias se encurtaram, as relações diminuíram e não há barreira para comunicação, para as relações. Hoje, todo mundo conhece todo mundo, mas ninguém é amigo de ninguém. Está um troço desse jeito.

Como diria o Mário Lago, ser saudosista é cuspir quadrado, mas não tenho vergonha de dizer que no tempo das missivas eu era mais feliz, me sentia mais presente com relação às pessoas, mesmo estando distante ou nos falando pouco. Hoje, com o excesso da comunicação, paradoxalmente, nos sentimos raso nos contatos.

Outro dia, mexendo na minha caixa do passado, encontrei cartas de namoradinhas perfumadas e com marca de batom. Sim, sou de um tempo em que recebia cartinhas com marca de batom e quem não recebeu? Bom, pegue-as, senti o cheiro dos meus tempos de adolescente inocente e fiquei com saudade da fantasia de ter de ficar esperando uma eternidade para receber uma cartinha dessas com marca de batom e perfume. A pergunta é, será que tem como fazer isso com o whatsapp?

* Este texto foi escrito ao som de: If you’re feeling sinister (Belle & Sebastian – 1996)

If you're feeling sinister

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