A cidade é uma só? (2012)

No filme Adirley Queirós mescla ficção e realidade para esculhambar a especulação imobiliária

No filme Adirley Queirós mescla ficção e realidade para esculhambar a especulação imobiliária

Adirley Queirós acaba de ser indicado na mostra competitiva da 47ª edição do Festival de Brasília com o filme Branco sai. Preto fica. Flertando com vários gêneros, a obra promete surpreender público e crítica. Ah, sim, e para quem não sabe, não conhece ainda, Adirley é um diretor da periferia de Ceilândia que conseguiu um lugar ao sol no cinema brasileiro contando histórias sobre o espaço que cresceu e vive hoje.

Seu estilo é agressivo, autêntico e contestador e, por tudo isso, há quem não goste dele. Na edição de 2012 do Festival, se achando desrespeitado e desprestigiado no tratamento reservado aos diretores, armou o maior barraco entre os organizadores e retirou esse trabalho, premiado em Tiradentes, da Mostra Brasília, evento paralelo realizando durante o festival só com filmes da cidade.

Agora ele volta por cima da carne seca, mas não posa de salto alto, pois essa condição não faz seu gênero. Exibido outro dia no Canal Brasil, A cidade é uma só?, como o ponto de interrogação denuncia, questiona quantas “Brasiílias” existem dentro dessa metrópole que conhecemos e que abriga o poder, a burocracia, a corrupção e uma população elitizada e burguesa que dá às costas para os moradoras das satélites, moradores esses que ajudaram a construir o sonho de JK.

A cidade é uma soIrônico e inteligente, o diretor mescla aqui documentário e ficção dentro de linha tão tênue que, às vezes, nos confundimos sobre o que é realidade e o que é farsa.  O filme começa como uma investigação série e contundente em torno da origem de Ceilândia, talvez uma das maiores cidades satélites do Plano Piloto. O nome do local deriva-se da sigla CEI – Campanha de Erradicação das Invasões, um projeto que o governo realizou no início dos anos 70 para combater o crescimento das favelas no Distrito Federal.

A história dramática dessa remoção é narrada pelo olhar crítico do diretor por meio da história de Nancy Araújo, cantora do grupo Natiê que viu de perto, nos seus tempos de menina, o drama das famílias que foram retiradas de suas casas nas favelas que viviam espalhadas por Brasília e despejadas onde hoje é Ceilândia.

A outra trama que corre paralelamente a tudo isso conta a história de um faxineiro-rap que luta, sem ter grana, nem apoio eleitoral, se eleger deputado distrital pelo PCN (Partido da Correria Nacional). O clima de deboche e sátira é visível nessa parte do filme, sobretudo quando o pré-candidato Dildu, fazendo campanha com um carro caindo aos pedaços, escolhe como bandeira de seu discurso o achincalhamento da especulação imobiliária. Preste atenção, sem citação de nome, às farpas contra o magnata desse ramo de negócio em Brasília, Paulo Octávio.

É em meio a esse embate entre um passado manchado por uma política social excludente e um presente sem perspectiva sobre o mesmo tema ainda, que Adirley Queirós constrói esse drama da vida real nas periferias. Drama da periferia que reflete de forma questionadora na cidade de Brasília como um todo.

* Este texto foi escrito ao som de: Os cães ladram mas a caravana não pára (Planet Hemp – 1997)

Planet hemp

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