Metalinguagem do ridículo

A blitz era tão fajuta que não sai dirigindo no meu carro porque não quis

A blitz era tão fajuta que não sai dirigindo no meu carro porque não quis

Fui pego numa blitz ontem bêbado. Já é a terceira vez em menos de dois anos. É uma situação tão corriqueira para mim que já desço do carro cumprimentando os policiais:

– Oi Firmino, hoje foi só uma latinha, tá?

E daí nós seguimos para os procedimentos de praxe, ou seja, apreensão dos documentos, teste do bafômetro – que não sou obrigado a fazer, mas fiz -, ligação para família e essa é a parte mais difícil porque ninguém lá em casa aceita que sou um alcoólatra. E como são chatos. E como falam. E como é gostoso está por cima da carne, com a razão toda. E eu, que tenho barba branca e tudo e não tenho a menor vergonha na cara, nem dei pelota. Aliás, fiquei dado gargalhar de cinema diante do carnaval do clichê que a situação toda proporcionou.

E por falar em carnaval, a blitz na era um espetáculo da mídia que estava fazendo a cobertura da ação da polícia rodoviária. E claro, para sair bonitinhos na fita, os oficiais estavam mostrando serviço. Pensei que a repórter da Globo ia me entrevistar, propiciando uma metalinguagem do ridículo, com a repórter sóbria entrevista o jornalista bêbado, mas acho que só devo aparecer no noticiário das 12h do dia seguinte.

???????????????????????????????De qualquer forma, o oficial que me abordou, super educado (a princípio todos são), perguntou o destino, a profissão e se assustou com o fato de eu, jornalista, o arauto da moralidade pública, está de pileque.

Depois de revistar o carro todo e só achar livros, CDs e DVDs – a prova do crime eu tinha jogado fora e só não joguei também o meu bafo porque não tinha jeito – o sujeito me fuzila à queima roupa:

– Vamos fazer o teste do bafômetro?

Uma latinha acusou 0,18mg/l, nem deu cócega no aparelho, mas como a imprensa estava nos nossos calcanhares, o  oficial cumpriu com o dever. E quer saber? Eu teria feito o mesmo. Assim, fui atuado na lei Nº 9.503/97, artigo 165. E com muito orgulho.

– O resultado está bem baixo, mas o senhor bebeu e não pode beber o mínimo que for por que é perigoso – se limitou a dizer o policial.

Mas a operação era tão fajuta que só não sai dirigindo no meu carro porque o meu irmão, na confortável posição da razão estava morrendo de medo em me deu uma bronca federal.

Mas o caro leitor deve está perguntando, de si para si, por que eu bebo. Ora bolas, por desespero. Essa é a mais pura, hedionda verdade, meu caro, por desespero. Bebo para aplacar a solidão das estradas, o medo da escuridão, por causa de um coração partido. Mas no fundo é tudo por causa de um coração partido. E qualquer dia desses faço como o João Roberto da canção do Renato Russo. Sigo para a estrada da morte…

* Este texto foi escrito ao som de: Pearl (Janis Joplin – 1971)

Pearl

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s