O espetáculo da solidão

- Conheço muita garota que é amarradona “no seu jeito de lidar”...

– Conheço muita garota que é amarradona “no seu jeito de lidar”…

– Mas diga, aí, por que até hoje você nunca se casou?

– Véi, “eu não divido o espetáculo da minha solidão com ninguém”!

– Iiiiihh, já vem você com essas frases de efeito…

– E daí, se elas falam o que eu quero dizer…

– É Woody Allen?

– Não, Domingos de Oliveira…

– Hein?!

– Deixa pra lá!

– Deixa pra lá, nada! Você tá aí dando volta, me enrolando e até agora não respondeu…

– Não respondeu o quê, cara!

– Porque você ainda não casou!

– Ah, sei lá, deve ser porque eu gosto muito de mim, sou um sujeito egoísta pacas. De mais a mais, não sou um sujeito fácil de lidar, nem eu me agüento!!

– Conheço muita garota que é amarradona “no seu jeito de lidar”.

– É? Tem louco pra tudo…

Solidão - Charge– Você é de amargar, viu.

– Foi você quem começou.

– Casamento é coisa boa,

– Mas não é mesmo, casamento é prisão, é administrar a vida alheia, o inferno dos outros. Aliás, não foi o Sartre quem disse que “O inferno são os outros”?

– Não sei se foi ele quem disse, mas é um inferno tolerar esse seu radicalismo…

– Radicalismo uma pinóia, se casamento fosse bom não tinha esse tanto de casal se separando, conheço um monte de gente que não durou dois anos…

– Ah, separa é porque não deu certo, ué!

– Não disse. O negócio é o seguinte meu chapa: a vida deveria ser um eterno namoro, a gente deveria namorar para sempre, não deveria deixar de namorar, nunca. A desgraça do homem é o casamento. O sujeito casa e vira um bozó, um escravo do lá. A mulher casa e se transforma numa chata controladora… é batata, espeto! Sabe o que é romântico? A fuga dos amantes…

– Ih, andou vendo aqueles filmes, né?

– Ah, aqueles filmes chatos em preto em branco que você gosta de ver…

– Mas tu és uma besta mesmo, viu, de dar patadas rutilantes no asfalto…

– Mas é verdade, sô…

– Verdade uma pinóia ô cacete, verdade uma pinóia! Um dia uma guria me disse que eu deveria arrumar uma namorada, que andava vendo filmes românticos demais… Coitada, será que ela não percebeu que a vida nada mais é do que um filme, que uma obra de arte é uma reprodução distorcida da realidade…

– E porque você não disse isso para ela?

– Porque ela é a mulher da minha vida…

– Xiiii…

* Este texto foi escrito ao som de: The Best of Bread (Bread – 1973)

Bread

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