Metrópolis (1927)

Uma cena marcante do filme de Fritz Lang que você pode ver colorido em Blade Runner

Uma cena marcante do filme de Fritz Lang que você pode ver colorida em Blade Runner

Provavelmente as últimas palavras ditas pelo cineasta Fritz Lang, antes de morrer, foram: “menos luz”. E não por que ele talvez tenha sido o criador do gênero noir no cinema, mas também por conta de sua visão amarga da vida diluída em filmes densos e escuros, moralmente escuros. Também pudera. Poucos artistas viveram e viram o que esse austríaco de Viena vivenciou e viu ao logo de 85 anos de vida. Ou seja, sua carapaça dura de prussiano passou por duas guerras mundiais – na primeira delas perdeu um dos olhos – a ascensão e queda do nazismo e o exílio nos Estados Unidos, onde realizou quase 30 filmes de uma filmografia de 43 títulos.

Fora isso, foi um dos pioneiros do cinema, sendo um dos mais importantes representantes do expressionismo alemão, período em que realizou não apenas sua obra-prima, mas o marco da ficção científica Metrópolis, que está em cartaz em Brasília dentro da mostra Fritz Lang – O horror está no horizonte. Até 27 de agosto, cinéfilos poderão conferir o poderoso cinema de um autor que imprimiu nas telas as angústias e vivências de uma época marcada por acontecimentos trágicos. Mais do que nunca Fritz Lang foi um homem do seu tempo e fez filmes que dessem vazão a essa observação.

Fritz LangUm dos últimos e mais fascinantes trabalhos realizados na fase do cinema mudo, Metrópolis, até hoje, quase 90 anos depois de sua estreia, espanta pelo visual forte, marcante e imponente. Agora imagina na época em que o filme foi lançado. E muito desse visual exuberante e grandiloquente da fita encontra resposta na formação de arquiteto e artista plástico do cineasta. Bem, reza a lenda que Adolf Hitler gostou tanto do que viu nas telas que, imediatamente, ordenou que o seu ministro da Propaganda Joseph Goebbels o convidasse para produzir filmes para o 3º Reich. Fritz achou a proposta imoral e fugiu para França assim que saiu da reunião com o ministro nazista.

“Enquanto ele falava, eu dava voltas à imaginação para descobrir como faria para tira o meu dinheiro do banco, arrumar minhas coisas e fugir do país”, lembraria anos depois. “Fui direto para casa, fiz a mala e deixei em Berlim todas as minhas economias”, lamentaria.

A exibição no Cine Brasília, ontem (24), foi especial, já que a cópia exibida, vinda direto da Fundação Murnau (Alemanha), era a original, ou seja, aquela com os seus 160 minutos de duração. Fora isso, a sessão lotada, com gente escorrendo pelas paredes, pingando dos lustres, contou com a performance ao vivo da banda instrumental brasiliense, Passo Largo, fazendo a trilha do filme.

E por que até hoje esse épico futurista do mestre Fritz Lang causa impacto e é cultuado? Ora bolas, porque foi uma obra original e visionária em seu tempo, influenciando a estética visual em vários segmentos, servindo de parâmetro, sobretudo, claro, para o cinema. Basta só conferir dois clássicos que beberam na fonte: Tempos modernos (1936), de Chaplin, ao icônico, Blade runner, de Ridley Scott.

Difícil não bater o olho nos trejeitos robóticos dos meninos da banda alemã, Kraftwerk, e não se lembrar da mulher-máquina do filme, que talvez a roteirista Thea von Harbou (então esposa do diretor) tenha se inspirado no Frankenstein de Mary Shelley.

Com um enredo simplista e até ingênuo que gira em torno de tema universal e bastante em voga na época, a luta entre injustiçados e opressores, Metrópolis também tem o mérito de ter antecipado, em décadas, o flagelo entre homem e máquina. Homem e o concreto das cidades. Homem e a falta de humanismo.

“Entre as mãos e o cérebro tem que ter o coração”, prega o filho do magnata que controla a cidade.

* Este texto foi escrito ao som de: Autobahn (Kraftwerk – 1974)

Autobahn

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