O cavaleiro barroco Ariano Suassuna

Foi-se o autor, mas fica sua obra e uma galeria de personagens marcantes

Foi-se o autor, mas, para eternizá-lo, fica sua obra e uma galeria de personagens marcantes

Com a saída de cena de Ariano Suassuna morre também uma parte do Brasil autêntico, do Brasil raiz, do Brasil que não tem vergonha de ser brasileiro e negar suas tradições. Antes de tudo, esse paraibano de alma pernambucana foi dramaturgo, poeta e defensor da arte brasileira e, por defender suas posições de formas radicais, ele conquistou amantes e detratores nos quatro quantos do país. Não que isso o incomodasse.

“A humanidade se divide em dois grupos, os que concordam comigo e os equivocados”, fazia troça das suas convicções enraizadas.

Um romântico por natureza quando o assunto era arte e, sobretudo a arte popular brasileira, esse Dom Quixote armorial meio barroco e totalmente pragmático vai deixar saudades. Vai-se o autor, fica a obra e sua galeria de personagens marcantes, emblemáticos, nordestinamente autênticos e humanos. Como diria o mais cativante deles, o matuto João Grilo, que o autor transformou em estrela: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre”, filosofa o personagem em O auto da Compadecida, sua obra mais importante e conhecida.

E logo ele que tanto gostava da vida e que não queria perder a queda de braço com a maldita O auto da compadecidamorte e seus ossos chacoalhantes. “Ela pode até aparecer aqui para me buscar, mas vou contrariado”, chegou a dizer na última aula espetáculo realizada no Museu da República, durante a Bienal do Livro e da Literatura, evento na qual foi o grande homenageado. Aliás, sua passagem pelo local foi apoteótica, uma convulsão de emoção e carinho. Eu estava lá e o tempo todo queria chorar.

Bom, entrevistei o grande mestre duas vezes. A última bem ali no Blue Tree, com o enfezado e culto jornalista Carlos Tavares, com quem tive a honra de trabalhar tempos atrás. O saudoso Tavares, assim como o Suassuna, era paraibano, e tinha uma ligação afetiva forte com o artista, diria que quase íntima e amorosa. E era emocionante, dava gosto mesmo de ver como o Ariano gostava do Tavares e de como o tratava com carinho. Um sentimento, diga-se de passagem, recíproco.

Um pouco mais do que um foca, me lembro que não conseguia esconder o nervosismo de estar ali diante daquele grande humanista e intelectual que tratava todo mundo com uma simplicidade comovente. Ouvia atentamente o Tavares dá um show de entrevista e quando conseguia, podia, eu intercedia com algumas perguntas tolas, mas tem uma que me orgulho muito. Foi quando perguntei a ele qual das adaptações para o cinema de seu clássico O auto da Compadecida ele gostava mais e a resposta foi fulminante.

“A dos trapalhões”, disse sem pestanejar.

Lá dentro de mim eu ficava gritando: “Eu também! Eu também!”, recordo.

Bem, naquele instante, o Carlos Tavares deu um banho de profissionalismo e competência, mas eu, meu chapa, eu ganhei o dia, e esse dia vou levar comigo para sempre.

* Este texto foi escrito ao som de: Quinteto armorial (1978)

Quinteto Armorial

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4 comentários sobre “O cavaleiro barroco Ariano Suassuna

  1. Bonita homenagem a Ariano mas também a Carlos. Casada com ele, também testemunhei e sorvi da relação amorosa que nutria por Ariano. Sou – lhe grata.

  2. Concordo com Maria, uma emocionante homenagem a Ariano e também ao meu irmão o jornalista Carlos Tavares que partiu tão precocemente e cuja amizade com Ariano era conhecida por todos nós.

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