O melhor lance (2014)

Um amante das artes perdido entre suas musas pictóricas

Um amante das artes perdido entre suas deslumbrantes musas pictóricas

Giuseppe Tornatore é o cineasta do premiado e cultuado filme Cinema Paradiso (1988).  E até agora talvez seja o diretor da mais instigante fita do ano, o drama de suspense O melhor lance, em cartaz na cidade. A história gira em torno de Virgil Oldman (Geoffrey Rush), em mais uma atuação colossal. Ele é um respeitado leiloeiro e profundo conhecedor de arte e antiguidades que nunca se apaixonou na vida. A sua verdadeira paixão são as obras de arte e as belas mulheres que serviram de musas para suas pinturas marcantes.

Um belo dia, no entanto, a jovem herdeira Claire Ibbetson (Sylvia Hoeks), dona de uma fortuna milionária e acervo de arte deslumbrante, o contrata para leiloar a grande coleção deixada pelos pais. O problema é que, dotada de misteriosa doença, eles só se comunicam de forma escusa.

Forma-se então uma sinuosa teia de mistérios e suspense em que fazem parte também um habilidoso engenheiro mecânico (Jim Sturgess), o fiel amigo Billy (Donald Sutherland) e o submisso caseiro Fred (Philip Jackson). “Há sempre algo de autêntico numa falsificação”, gosta de dizer ao parco círculo de amigos que o cerca.

Elegante, O melhor lance, em meio às canalhices mundanas e mercenárias dos dias atuais, é uma O melhor lance 2bela homenagem à pintura e o deleite proporcionado por trabalhos de artes que eram realizados numa época em que a televisão e a internet ainda não tinham emporcalhado nossa imaginação e sensibilidade. Daí o encantamento de se vê passeando diante de nossos olhos belas telas de William-Adolphe Bouguereau, com sua reprodução da clássica obra de Sandro Botticelli, O nascimento de Vênus, Albrecht Dürer, e o belo Retrato de Elspeth Tucher, entre outros.

“Há regras específicas no mundo das antiguidades”, ensina com certa soberba de especialista em arte, Virgil Oldman.

Com trilha sonora do mestre Ennio Morricone, o filme traz uma narrativa envolvente cheia de sortilégios que nos faz acreditar o tempo todo que Virgil finalmente encontrou o grande amor de sua vida. E a comovente relação que traça entre o amor e as belas obras de artes que surgem – desculpe o trocadilho -, na tela, só dramatiza mais o drama que irá encaminhar nosso pedante e admirável protagonista.

“As emoções podem ser como as obras de arte, falsas”, ensina o “melhor” amigo Billy.

Com desfecho exemplar, trazendo moral, tantas vezes abordadas no cinema e na literatura, mas nunca exemplificada pela humanidade, O melhor lance, em vários momentos me fez lembrar o argentino Nove rainhas. Nos dois filmes os personagens, assim como na vida e nas obras de artes, na maioria das vezes não são o que aparentam ser, por mais belas e deslumbrantes que são.

O melhor lance é o que a vida nos dá, bom ou ruim.

* Este texto foi escrito ao som de: Vintage violence (John Cale – 1970)

Vintage violence - John Cale

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