Invasões britânicas playing my heart

bárbaros selvagens e suas guitarras nostálgicas numa fria noite de quinta

bárbaros selvagens e suas guitarras nostálgicas numa fria noite de quinta

Foi ali no Velvet Pub, na 102 Norte. Numa noite de quinta-feira. Quinta fria, mas no porão do espaço a temperatura do ambiente começou a esquentar quando os meninos do projeto Invasão Britânica subiu ao palco e mandou logo de cara uma dos Hollies: Please don’t feel too bad. Bom, Budweiser com Heineken à meia-noite já ia alto e o céu não tinha limite, mas me sentia bem quando eles tocaram na sequência o clássico de Pete Townshend, I can´t explain. Sim, e naquele momento um filme passou em minha cabeça ao som da canção com fragmentos da biografia do guitarrista do Who que tinha acabado de ler e flashes sonoros das primeiras músicas da banda que escutei da fase setentista.

Eu estava alto, mas ainda não flutuava quando entrou os riffs rascantes da introdução de All day and all of the night. Putz! Como o líder dessa banda canta bem em inglês! Será que algum dia eu vou conseguir cantar tão bem assim uma canção dos Kinks?! Bem, toco mal e, porcamente, Too much on my mind ao violão. Enquanto isso, eu tentava não parecer ridículo com minha camisa social rosa, mas os acordes dançantes de The last time, dos Stones, só “melhoraram” as coisas. Mas não me lembrava de mais nada quando ouvi mais tarde Out of timeOut of my head.

Invasão britãnicaE por falar em cabeça, ela, que já não obedecia aos meus comandos, de repente se viu envolta em sensações proustianas quando a banda tocou na sequência, Memphis Tennessee Ain’t she sweet. Sei lá, um cheiro de cigarro e vinil embolorado, com as pontas descascadas dançaram em algum lugar do meu inconsciente e tinha alguma coisa a ver com Tony Sheridan e os Beatles em Hamburgo, comigo na sala de casa tocando aquele vinil sucateado com sucessos do rock de 50.

Mas algo de primitivo dentro de mim começou a despertar quando o baixo ondulante de, We’ve gotta get out of this place, surgiu em cena e aquela maldita garota sádica do passado que infernizou minha alma volto à tona ao som de Brown eyed girl do mestre Van Morrison.

Incrível como as canções ajudam a contar nossa história de vida, boas ou ruins. E como algumas delas são tão pungentes que chegam a machucar quando a escutamos de surpresa. O cover dos Beatles do primeiro disco, Baby, it’s you, sucesso escrito por Burt Bacharach, é um deles. Adoravelmente me fez lembrar o tempo em que eu não queria existir. Acho que ainda não quero existir, mas é mais difícil de falar sobre o assunto quando se está sóbrio.

Ainda bem que, no meio do nada, me resgatando do limbo de meu momento – sweet down, surge a solar Sunny afternoon, dos irmãos Davies, só para não me deixar esquecer que foi onde tudo começou ali no Gate’s pub, com os versos: “The taxman’s taken all my dough
And left me in my stately home”.

Invasões britânicas in my heart, selvagens bárbaros e suas guitarras nostágicos nua fria noite de quinta, me fazendo voltar no túnel do tempo da minha memória com gosto de saudade e sentimentos agridoces. “Yeah yeah yeah wild thing/Oh sock it to me”, canta o vocalista, evocando os gritos primitivos de Reg Presley dos Troggs.

Na volta para casa, no carro, ecos da noite ainda bailavam em minha cabeça alcoolizada. A ressaca do dia seguinte foi formidavelmente medonha.

* Este texto foi escrito ao som de: Set list do show Invasões britânicas (Anos 60)

The last time

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