Quilombo (1984)

Antônio Pitanga e Zezé Motta, na pele de comandantes de peso em Palmares

Antônio Pitanga e Zezé Motta, na pele de comandantes de peso em Palmares

Quilombos eram os esconderijos dos negros que fugiam do jugo amargo da escravidão em meados do século 16, no Brasil, sendo que o mais famoso de todos foi o de Palmares, localizado na Serra da Barriga, na então Capitania de Pernambuco. Essa região hoje pertence ao estado de Sergipe, estado natal do cineasta Cacá Diegues que, desde pequeno ouvia, histórias de seus antepassados sobre a saga dos negros desse período triste da história do Brasil.

De tanto ouvir essas histórias, o diretor, que acaba de lançar pela editora objetiva, Vida de Cinema, seu livro de memórias, resolveu adaptar para as telas essas lembranças orais que guardou ao longo de toda a vida. O resultado são três filmes emblemáticos sobre a luta dos escravos pela liberdade no Brasil: Ganga Zumba (1963), Xica da Silva (1976) e Quilombo (1984), esse último, exibido outro dia no Canal Brasil.

Produção épica realizada em parceria com o governo francês, o filme é uma espécie de continuação comemorativa de vinte anos do primeiro projeto do diretor sobre o tema realizado com essa temática, o clássico Ganga Zumba, um marco do início do Cinema Novo. E, assim como este, traz roteiro baseado nos alfarrábios históricos escritos por João Felício dos Santos.

Quilombo 4Na trama das duas fitas, o destaque fica por conta de dois grandes líderes da revolta negra, Ganga Zumba e Zumbi, aquele que não morre nunca, como diz um dos personagens. “Comandante guerreiro, (…), protetor, guardião padroeiro”, como canta Gilberto Gil numa das faixas escritas para trilha de Quilombo.

No filme, os dois personagens são vividos, respectivamente, por Tony Tornado e Antônio Pompeu. Eles passaram boa parte da vida lutando contra o maior inimigo, os brancos, mas o desgaste com sucessivas lutas e negociações de paz, o colocaram em discordâncias políticas. No final, acabaram se sucumbindo ao poderoso exército do bandeirante português Domingos Jorge Velho, vivido de forma magistral por Maurício do Valle.

Com produção impecável e elenco recheado de estrelas da televisão brasileira e do cinema da época, o filme é de uma importância ímpar no que diz respeito ao conteúdo histórico, deveria até ser exibidos em escolas, mas exagera na mise-en-scène destes fatos por conta das licenças poéticas de Cacá Diegues, que é um diretor que me amarro, mas que às vezes é de uma generosidade criativa infantil. Não fossem os fatos históricos que baseiam a narrativa, a credibilidade do enredo ficaria comprometida de forma constrangedora.

Nada contra o cineasta abrir mão da licença poética para criar uma obra de acordo com seu estilo, a bela Sofia Coppola fez isso uma ou duas vezes em seus filmes e foi bem sucedida, mas há limite para o uso do recurso. Em Quilombo, tal estratagema dá um caráter fake ao conjunto da obra que, no geral, tem uma pontuação boa. Destacaria a trilha sonora assinada pelo formidável Gilberto Gil e boas atuações de um elenco que é um verdadeiro “Advinha onde está o Wally”, com atores consagrados de hoje no início da carreira.

* Este texto foi escrito ao som de: Quilombo – Trilha sonora (Gilberto Gil – 1984)

Quilombo 3

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