Viva a liberdade (2013)

Nessa farsa política o versátil ator Toni Servillo nos brilha com dupla atuação

Nessa farsa política o versátil ator Toni Servillo nos brinda com dupla atuação

A política na Itália consegue ser mais caótica e molambenta que aqui no Brasil. Pelo menos é o que os noticiários mostram. Em cartaz na cidade, a comédia dramática Viva a liberdade é um olhar cheio de humor, amargura crítica aos anos pós-Berlusconi. Bom, Berlusconi você sabe quem é não é verdade, se não aquele político tarado com cara de manipulador de ventríloquo que parece querer ser o Mussolini da era moderna.

Na trama, o formidável ator Toni Servillo – o protagonista de A grande beleza (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano) -, vive nas telas dois personagens em conflitos, ou seja, os irmãos Giovanni Ernani e Enrico Oliveri. O último é o secretário do principal partido de oposição do governo – partido esse de origem esquerdista -, e que passa por uma crise moral arrebatadora. Pressionado diante da candidatura à presidência, ele resolve sair de cena, desaparecer de uma vez e cabe ao assessor, Andrea (Valeiro Mastandrea), solucionar o problema o quanto antes.

Assim, ele e outros assessores desenterram de um passado de 25 anos o irmão obscuro e descolado do chefe e é com esse cara, ou melhor, essa nova cara, que ele (que não é ele) surge diante da mídia, dos correligionários, do público. O plano parece ousado, mas funciona. Ao contrário de Enrico, Giovanni é despojado, de alma alegre e personalidade aberta. Todos ao redor percebem a diferença positiva do candidato e é, talvez, justamente nesse ponto, a essência do filme. Ou seja, calcada na ideia de renovação a qualquer preço, mesmo que essa virada seja de forma nada convencional.Viva a liberdade 2

Narrado em tom de farsa política, o filme se passa na Itália, trazendo de forma engraçada e contundente a realidade desse universo no país, mas é uma história que também tem muito a nos dizer. Sobretudo nesses dias de política. Até porque, assim como lá, a nossa política há décadas precisa de renovação. Uma política, diga-se de passagem, corrupta, entreguista, oportunista e decadente.

Mais uma vez exuberante em cena, o elegante Toni Sevillo mostra porque é um dos mais importantes atores de sua geração na Itália de Fellini e tantos outros mestres do cinema. Intenso e divertido na medida, consegue caminhar com desenvoltura no ambíguo caminho do humor e da tragédia, evidenciado na personalidade dos dois irmãos. Aliás, numa espécie de Caim e Abel do amor, eles foram separados por causa de corações partidos já que, no passado, amavam a mesma mulher. E o pior é que ele não ficaria com nenhum deles.

E para quem gosta dessas coisas, o diretor Roberto Andò ainda nos presenteia com um sutil exercício de metalinguagem. É quando o personagem mais leve de Toni Servillo arregaça as mangas e vai ser assistente de direção do filme do marido da mulher que ele amou no passado. , não se faz de rogado e arregaça as mangas para ser assistente de contra regra. Dessas coisas absurdamente legal que só uma boa comédia italiana, mesmo que agridoce, como essa, tem.

* Este texto foi escrito ao som de: Moto perpétuo (Guilherme Arantes – 1974)

motoperpetuo

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