Beleza americana (1999)

No filme, Kevin Spacey é um homem de meia idade que se delicia com uma ninfeta mala

No filme, Kevin Spacey é um homem de meia idade que se delicia com uma ninfeta mala

Se você gosta de Nelson Rodrigues e Tennessee Williams e não tem um pingo de cinismo ou vergonha na cara, então vai amar o drama Beleza americana (1999), que é assim, uma espécie de radiografia sórdida da natureza humana. Por quê?! Ora bolas, por assim como na vida real, ninguém no filme presta. E ninguém mesmo, meu chapa.

É a história de Lester Burnham (Kevin Spacey) e a representação do que ele foi. Sim, porque ele morreu e está nos contando a história de seus últimos dias que vai desenrolar nas próximas duas horas. A referência direta aqui é o formidável clássico Crepúsculo dos deuses, do mestre Billy Wilder. Ele é um homem de meia idade insatisfeito no trabalho e no casamento com a ambiciosa e materialista, Carolyn (Annette Bening), uma mulher que se preocupa, entre outras coisas, com a aparência, com que os outros vão pensar.

“Você é a imagem de felicidade que projeta”, ensina o grande empresário da indústria imobiliária Bobby Kane (Peter Gallagher), quem ela idolatra e tem um affair, traindo o marido. “Elas acham que eu sou um perdedor e a verdade é que não me esforcei muito para me desvencilhar dessa imagem”, confessa ele, falando de sua esposa e filha num diálogo intimista e direto com você, o espectador.

Um dia, ele esbarra com a deliciosa Angela (Mena Suvari), a melhor “amiga” de sua filha que é uma ninfeta cheia de pecado, malícia e mentiras e sua vida se transforma. Sim, porque ele decide chutar o pau da barraca e mandar às favas o emprego, a família e a vida idiota que levava. Assim, pede demissão do emprego – saindo por cima sendo canalha – dá um cala boca na esposa chata e decide fazer tudo que sempre quis fazer na vida e nunca pode fazer. Uma delas é comer a deliciosa ninfeta que transita cheia de desejo em sua frente.Beleza Americana 2

Enquanto isso, a problemática filha Jane (Tora Birch), típica adolescente cheia de problemas artificiais, se envolve com um traficante pacato (Wes Bentley) de drogas que tem um pai militar (Gary Cooper) paracoico e retraído que esconde um segrego “hediondo” que ele nega e esconde à sete chaves: seu homossexualismo.

Com roteiro escrito por Ian Ball – dramaturgo e produtor de televisão e cinema – Beleza americana foi o filme que apresentou o diretor inglês Sam Mendes ao público mundial. Elegante, cínico e divertido, dentro de uma premissa mórbida, de humor negro mesmo, a fita traz uma trama sinuosa em que todos os personagens se esbarram, se confrontam e se revelam o tempo todo. Traz aos olhos do espectador, um enredo ardiloso, intricado e cheio de revelações sentimentais e segredos recônditos em cada cena.

Sobretudo porque, em cada uma delas, as máscaras caem. E a visão da realidade que os cercam é fustigante, constrangedora, medonha. A ninfeta deliciosa que gosta de se gabar que transou com todo mundo é virgem, o adolescente educado é um traficante de drogas experiente, o militar moralista se mostra ser uma bicha enrustida, o marido frustrado que busca a falsa felicidade em atos de rebeldias infantis.

Tudo em Beleza americana é deliciosamente fake e, incomodamente realista do ponto de vista da vida que nos cerca. Mas Nelson Rodrigues e Tennessee Williams impossível. É a vida como ela é em sua essência.

* Este texto foi escrito ao som de: Abbey Road (The Beatles – 1969) 

Abbey Road

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