Os sete gatinhos (1980)

Adaptação de Neville d'Almeida de peça de Nelson Rodrigues esculhamba a família

Adaptação de Neville d’Almeida de peça de Nelson Rodrigues esculhamba a família

Para o jornalista e escritor Paulo Mendes Campos, o teatro até podia ser uma casa destelhada em que se bisbilhotassem tudo e todos, mas nas peças de Nelson Rodrigues, esse teatro não era apenas destelhado, mas com os espectadores nus dentro. A comparação é mais do que válida, tendo em vista que o dramaturgo desnudava em seus textos a alma, a moral e o cinismo de seus personagens, por tabela, a humanidade.

Talvez uma das melhores adaptações para o cinema de uma história daquele que foi o maior dramaturgo deste país, Os sete gatinhos, escrita originalmente em 1958,está em cartaz na cidade graças à mostra Neville d’Almeida – Crônica da beleza e do caos, até o dia 20 de julho no CCBB Brasília. O filme traz um elenco formidável que encena uma trama em que a instituição família é vilipendiada em todos os flancos.

É a história de “Seu” Noronha e suas cincos filhas libidinosa que moram numa casa de classe média baixa no Grajaú. Quatro delas se prostituem e, num primeiro momento, sem ele saber. Depois os atos devassos das gurias são descobertos pelo patriarca e tem o seu consentimento, desde que a virgindade da caçula seja honrada. “Isso é lar? Aqui ninguém presta, ninguém vale nada”, lamenta com gestos teatrais. “Minha casa é um bordel de filhas, nós estamos apodrecendo”, continua de modo alarmante.

Os sete gatinhosQuando o diretor da escola em que a caçula estuda faz uma visita à família, revelando que ela matou uma gata prenha com sete gatinhos no meio do recreio, sem uma justificativa concreta, todas as máscaras na casa caem. “Sua filha precisa é de um psiquiatra”, diz Dr. Portela, vivido no filme por Ary Fontoura.

Depois do estrondoso sucesso de A dama da lotação (1978), que fez sete milhões de espectadores, Neville d’Almeida se animou numa segunda incursão ao universo de Nelson Rodrigues e não poderia ter feito escolha melhor. Com seu jeito caótico, abusado e niilista de ver as coisas, o diretor cria aqui um clima de comédia erótica deliciosa em que belas atrizes trazem à tona de um jeito divertido e sensual as mazelas da natureza humana. A atuação de Lima Duarte na pele do impagável “Seu” Noronha está entre as melhores do cinema nacional.

Mas o que sustenta o filme é o texto bem autêntico de Nelson Rodrigues, que apresenta aqui uma coleção de pérolas como aquela em que o velho, ao se deparar com a parede do banheiro cheia de pornografia, diz indignado: “Eu quero saber quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro?”, revolta-se.

Avesso a fazer questionamentos sociais em suas peças, Nelson Rodrigues cria aqui um dos momentos dramatúrgicos mais marcantes do teatro. É quando uma das filhas, no filme interpretada por uma desbocada Regina Casé, o humilha gritando: – Contínuo!”, diz.

Muitas adaptações da monumental obra rodrigueana foram feitas para o cinema. Com Os sete gatinhos o marginal Neville d’Almeida acertou em cheio.

* Este texto foi escrito ao som de: El toro! (Suíte Super Luxo – 2004)

El toro

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