O homem duplicado (2013)

Como diz aquele clássico da Jovem Guarda: "Um é demais, eu sei não era eu".

Como diz aquele clássico da Jovem Guarda: “Um é demais, eu sei não era eu”.

Se tu acha que é barra pesada viver consigo mesmo nesse mundo de louco, imagine então dois de você. Essa é a premissa proposta pelo drama de suspense O homem duplicado, em cartaz na cidade. Dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, o filme é uma adaptação da obra homônima escrita pelo escritor português José Saramago. Bem, não li o livro, mas depois que vi o filme fiquei com vontade de comprar a obra. E tem mais, não li o livro ainda, mas acho esse filme, infinitamente, melhor do que Ensaio sobre a cegueira, do Fernando Meirelles, que por sinal, li o livro.

Na trama, o bonitão Jake Gyllenhaal – que é a cara de um primo meu – vive o pacato professor de história Adam. Ele vai levando sua vida de acadêmico numa boa, até o dia em que, de bobeira em casa, descobre que tem dois deles andando por aí, isso mesmo, um sósia e ele pira o cabeção. E quem não piraria? O sujeito se chama Anthony, tem a sua cara, a mesma voz e até as mesmas cicatrizes só que ganha a vida como ator.

“Somos irmãos!”, diz desesperado um deles, diante da situação insólita, quando se encontram pela primeira vez num quarto de hotel.

Mas acontece que eles não têm, nunca tiveram nenhum vínculo sanguíneo e jamais se encontraram na vida antes. Agora estão um diante do outro e, num primeiro momento, não sabem como lidar com o caso. Pior, pessoas queridas que fazem parte do convívio de ambos agora estão envolvidas nessa macabro acaso do destino e sofrendo. “Você nunca teve um irmão e só tem uma mãe. Não acha que já tem problemas demais para ficar se encontrando com homens em quarto de hotéis?”, ironiza a mãe de um deles, vivida pela sempre linda e elegante Isabella Rossellini.O homem duplicado 3

Após se recuperarem do susto, os dois sósias começam a tirar “proveito” da confusão e é quando tudo degringola de vez ladeira abaixo, com sentimentos feridos, desconfianças acesa e ódio velados e incompreendidos vindo à tona num turbilhão de surpresas.

Confesso que quase, mas quase mesmo, por um milímetro, não vi esse filme bárbaro por causa de um comentário boboca de um desses críticos “sérios de plantão” que li nas redes sociais. Não me arrependi. Claustrofóbico, denso e surpreendente, o filme envolve o espectador até o último minuto.

Há um clima velado de terror no ar, de ficção científica bem sutil nas entrelinhas. E isso que é gostoso, que desperta atenção para a trama. Afinal, qual a simbologia por trás daquelas misteriosas aranhas minúsculas e gigantes que aparecem na história? Com parte das filmagens rodadas na Espanha, o filme tem um visual que causa estranhamento. Isso porque, na minha percepção, são atores norte-americanos no elenco com um cenário nada hollywoodiano. A paisagem é árida, meio amarelada, com prédios diferentes, que não estamos acostumados a ver nos filmes americanos, nada a ver com o clima excessivamente solar de Los Angeles.

“Eu a encontrei na sombra da minha mente”, diz um verso mais do que pertinente da faixa After the lights go out, do sensacional trio The Walker Brothers.

Ousado e provocativo o final em suspenso deixado pelo diretor Denis Villeneuve é instigante, um recado do tipo assim: “Ei, o meu filme é muito bom, mas leiam o livro”. É o que vou fazer.

Bonitão e simpático, Jake Gyllenhaal, revelado aos olhos dos mundos no polêmico e corajoso, O segredo de Brokeback Mountain, é um rosto simpático nas telonas que traz nas entrelinhas o sinônimo de talento e competência. Bem visceral e convincente nos dois “eu” de si que interpreta em O homem duplicado – o professor meio desengonçado e o ator descolado -, o ator de 30 e poucos anos ainda vai nos surpreender, e muito, com sua verve cênica e sex appeal.

* Este texto foi escrito ao som de: Images (The Walker Brothers – 1967)

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