O segredo da Múmia (1982)

No filme Wilson Grey vive seu primeiro papel principal depois de anos como coadjuvante

No filme Wilson Grey (dir.) vive seu primeiro papel principal depois de anos como coadjuvante

O carioca Ivan Cardoso sempre esteve nos bastidores dos grandes acontecimentos cinematográficos de seu tempo no Brasil e em alguns lugares do exterior. Apaixonado por fotografia e sempre com uma câmera a tiracolo fez registros de várias situações e personagens da seara como atores diretores e mulheres lindíssimas. Muitos desses registros ele publicou no sensacional De Godard a Zé do Caixão, lançado pela Funarte em 2002. Eu tenho minha edição autografada pelo cara.

Mas essa ligação próxima dele com o cinema não é gratuita. Entusiasta da sétima arte, realizou uma série de produções em Super 8 e curtas-metragens antes de finalmente filmar em 1982 seu primeiro longa-metragem, o clássico O segredo da Múmia, que está dando sopa este mês no Canal Brasil.

Com este e outros filmes que realizou o cara viria ficar conhecido como o mestre do terrir, gênero cinematográfico que une numa mesma trama, humor e terror de uma forma assim bem autêntica, bem nossa. Misturando sexo e violência, vida e morte em cores vivas, montados de forma marginal e bastante humor, criou um estilo inconfundível de fazer cinema. Não é chanchada, nem pornô chanchada, nem um filme B norte-americano dos anos 40 e 50. É simplesmente um filme de Ivan Cardoso, é terrir.

“Seria uma metáfora ancestral essa, do terror e do riso, do sexo e da violência e da morte por fim?”, escreveu na época do lançamento o jornalista e crítico musical, Nelson Motta, no O Globo.O segredo da múmia

A trama começa com alguns cartões-postais trazendo os dizeres: “Cairo 1954”. Na sequência, vemos colagens, velhos documentários sobre o Egito Antigo, as pirâmides e a múmia desembarcando no Brasil. Mas vem cá… Múmia no Brasil?! Isso mesmo meu chapa, em se tratando de Ivan Cardoso tudo pode, tudo é permitido e daí clichês do gênero são mesclados com referências clássicas como Frankenstein e a própria Múmia.Aqui a criatura egípcia chega a Terra brasilis fazendo parte de um experimento de cientista maluco vivido pelo formidável Wilson Grey. No passado ele foi vítima de zombaria da mídia e de seus pares por conta de um tal elixir da vida.

“Minhas teorias não foram feitas para ficarem nas bibliotecas. Eu faço experimentos”, avisa desafiador.

Pronto, é a deixa para que deliciosas musas do cinema nacional, ainda no começo da carreira como Nina de Pádua, Maria Zilda, Tânia Boscoli e Clarice Piovesan, desfilarem para lá e para cá nuas, servindo de cobaias para o cientista maluco. Integrantes da alucinada trupe Asdrúbal trouxe o trombone, Evandro Mesquita e Regina Casé, também são destaques no elenco, ela, na pele de uma empregada bem safada, que adora ter motivos para tirar a roupa.

Uma autêntica produção guerrilheira, marginal, Ivan Cardoso, uma figura querida no meio, conseguiu arregimentar um seleto time de atores e amigos do peito para sua fita, entre eles Jardel Filho, Zé do Caixão, o artista plástico Hélio Oiticica, Júlio Medaglia, Paulo César Pereio, Joel Barcellos, entre outros. Mas a estrela, sem dúvida, é Wilson Grey, em seu primeiro papel principal da carreira, depois de tantos filmes como coadjuvante. Uma bela homenagem a quem se doou tanto para o cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: 20 supersucessos – Renato e seus Blue Caps (1997)

Blue caps

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