Nas ondas proustianas da Rádio Executiva 92.7

A primeira vez que escutei As tears go by dos Stones foi na emissora

A primeira vez que escutei As tears go by dos Stones foi na emissora

Outro dia, indo de Brasília para Anápolis (GO), tentando desesperadamente sintonizar a rádio na CBN para ouvir o jogo do Portugal x Gana, sem querer, eu acabei captando as ondas sonoras da Rádio Executiva. Barbaridade, mas que emoção! Sim, isso porque a Rádio Executiva de Goiânia foi uma escola musical para mim nos meus tempos de pré-adolescente. Por isso que, ao ser engolfado pela sintonia da emissora naquele momento, no meio da estrada, tive assim um daqueles processos proustianos remissivos e viajei no tempo. E nesse meu road music sentimental, de repente, me vi com 13, 14 anos, deitado no escuro da sala, tendo apenas como iluminação, as luzes verde e vermelha do aparelho de som.

Durante uns três anos, ouvia sistematicamente todos os dias os programas musicais da emissora que tocava de tudo, menos, felizmente, o que estava na crista da onda. E o que estava na crista da onda meu chapa, era só porcaria, uu seja, coisas como música sertaneja, com as duplas Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, entre outras, tocando sem parar nas FMs e AMs, além de lambada, axé music e bobagens do gênero.

Na Executiva FM não. Tocava ali a autêntica música popular brasileira, os clássicos de todos os gêneros e ainda tinha programas especiais sobre vários estilos musicais que falavam dos artistas e de suas canções de forma educativa e despretensiosa. Meus primeiros jazz, meus primeiros blues eu escutei na Executiva FM. Muitos artistas que venero hoje eu conheci ali. Outros que já conhecia, Rádio Executivaeu simplesmente me aprofundei ao conhecer melhor suas trajetórias e trabalhos, ligadão na Executiva. Também tinham aqueles que eu nunca soube que eram, mas que até hoje as canções moram em meu inconsciente. Minha busca por saber que eram os donos de algumas vozes é incansável.

Não me esqueço da primeira vez que ouvi As tears go by dos Rolling Stones, que eu nem imaginava que era deles. Era um fim de tarde deslumbrante, com a sala toda escura, a luz do crepúsculo caindo liricamente no horizonte, e o Mick Jagger cantando os versos iniciais: “It is the evening of the Day/I sit and watch the children play…”, ouvi estático, hipnotizado.

Foi mágico.

Gozado que achei que aquela voz melíflua, gostosa de ouvir, fosse de uma mulher. E vários momentos assim aconteceram ao som da Executiva FM, 92, 7. Algumas canções dos Beatles que só foram sucessos em compacto play também. I call your name, imortalizado também na voz dos The Mamas & the Papas, foi uma dessas surpresas agradáveis. Outra confissão. A primeira vez que ouvi Another day de Paul McCartney, um de seus primeiros sucessos solos, foi da Rádio Executiva FM. Um sundae.

Incrível como o rádio tem o poder de infernizar, no bom sentindo, nossas mentes e corações, apenas com a voz do locutor, com as notícias e canções que ouvimos via ondas sonoras. E que apesar de toda a tecnologia dos tempos modernos, ele nunca sai de moda. Aliás, naqueles tempos de pré-internet, eu só conseguia ter as informações que tinha dos artistas que amava, pelo rádio. Comprei muito disco com as dicas formidáveis da Executiva FM.

Quando, anos depois, fui morar em Brasília, levei minha listinha das coisas que ouvia na Rádio Executiva FM para comprar tudo que aprendi ouvindo a emissora.

* Este texto foi escrito ao som de: Secos e Molhados ao vivo no Maracanãzinho (1974)

Secos e molhados ao vivo

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