São Bernardo (1972)

Para o ator Othon Bastos o personagem Paulo Honório foi o papel mais importante que fez no cinema

Para o ator Othon Bastos o personagem Paulo Honório foi o papel mais importante que fez

E não é que coincidentemente estava passando São Bernardo de Leon Hirszman outro dia, no Canal Brasil! Justamente na semana em que entrevistei o grande ator Othon Bastos, durante o IV Anápolis Festival de Cinema. Arrisco dizer que essa pérola do cinema nacional está entre os cinco grandes filmes já realizados. Para o ator de 81 anos, simplesmente é o seu melhor momento no cinema.

“Na verdade essa é a grande interpretação que tenho como ator, esse personagem me deu essa oportunidade como ator, isso para mim é o grande achado. São Bernardo para mim é o meu grande trabalho”, me disse orgulhoso.

Baseado em obra homônima de Graciliano Ramos, o filme é uma obra-prima com sua narrativa concisa, árida, lenta e interpretações viscerais. Othon, na pele do amargo Paulo Honório, é a atuação em pessoa. Aqui ele é um pequeno proprietário de terras que com perspicácia e obstinação, se transforma num fazendeiro de respeito à frente da propriedade São Bernardo. “Na verdade, nunca soube quais foram os meus atos maus e os meus atos bons”, diz em momento de reflexo sobre sua personalidade seca.

Homem de negócio, ele não dá ponto sem nó e cada passo à frente seu é no sentido de evoluir como empreendedor. Até o casamento com a tímida e retraída professora Madalena (Isabel Ribeiro) é no sentido de obter alguma vantagem. Mas estudada e aberta à nova ideias, ela não deixa que o temperamento bruto do marido sufoque sua maneira de ver o mundo, a vida, as pessoas. É desse conflito entre dois mundos diferentes que se constrói parte da narrativa quase épica de Leon Hirszman.Graciliano Ramos - São Bernardo

“Madalena chegou aqui com bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos se esbarraram com minha brutalidade e o meu egoísmo”, admite Honório. “Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. Foi esse modo de ser que me mutilou. Sou um aleijado”, agoniza na solidão de sua aspereza.

Homem de esquerda norteado por diretrizes humanistas, o diretor Leon Hirszman cria aqui, a partir da poderosa obra de Graciliano Ramos, um contundente ensaio sobre a natureza humana. “O Leon me tranquilizou dizendo que ele queria era o lado político que eu tinha dentro de mim”, contou o ator Othon Bastos, explicando a construção do personagem.

O tempo todo o leitor/espectador percebe-se que Paulo Honório não é um homem mau por natureza, mas porque as agruras da vida e o do ambiente que o cerca o deixou assim. O ciúme, o fantasma do comunismo, da traição, o medo da ruína financeira surgem em seu horizonte como fantasmas de uma realidade massacrante dia a dia.

“Mulher sem religião é uma coisa horrível”, quando nota as ideias avançadas da mulher diante dos convidados.

A fotografia estourada de Eduardo Escorel influenciou muito diretor de fotografia do cinema de retomada e a trilha sonora de Caetano Veloso, construída à sombra do experimental do disco Araçá azul, lançado na época, é no mínimo tocante, com sua vocalização que parece surge do fundo da alma. Assim como os dramas e espectros dos personagens dessa trama inesquecível.

* Este texto foi escrito ao som de: Araçá azul (Caetano Veloso – 1972)

Araçá Azul

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