Mazzaropi – Uma antologia de risos

O personagem criado pelo comediante representa o Brasil profundo

O personagem criado pelo comediante representa o Brasil profundo

O personagem caipira criado por Mazzaropi para o cinema, a partir de referências do teatro de variedades, representa o Brasil profundo. Embora muita gente que veja seus filmes ou batem o olho numa imagem do artista não tenha a sensibilidade para notar isso. Essa figura frágil ingênua, um pouco atrapalhada e ignorante chegou até os dias de hoje seguindo os passos dos Jesuítas, a catequização dos índios, os bandeirantes. Quem me chamou atenção para o fato foi o jornalista, crítico de cinema e cineasta Celso Sabadin. Aliás, foi motivado por seu documentário Mazzaropi, exibido outro dia no Canal Brasil, que tirei da minha estante mágica um livro sobre o comediante que há tempos estava adiando para ler.

Escrito por Paulo Duarte, um entusiasta da obra do ator, diretor e empresário, Mazzaropi – Uma antologia de risos, lançado pela Imprensa Oficial dentro da coleção Aplauso Especial, não é o livro definitivo sobre a trajetória do comediante, até porque é um olhar de fã. Daí a abordagem sempre otimista e exagerada do texto que também não é lá grande coisa. Mas como material informativo a obra corresponde aos anseios. Estão lá, além de imagens raríssimas, como fotogramas dos filmes, sinopse das tramas – algumas com comentários – uma pequena biografia de Mazzaropi, filho de imigrantes portugueses e italianos nascido em São Paulo em 1912.

O problema é que, por ser um livro de fã, Paulo Duarte, anestesiado pelo entusiasmo, se anula às “críticas positivas” aos problemas técnicos dos filmes do grande Mazza, por exemplo. Houve um tempo na carreira do artista que, protegido pelo prestígio da fama e sucesso que conquistou ao longo da carreira, ele, à frente da produtora que criou, a PAM Filmes, ligou o piloto automático e negligenciou alguns dos seus trabalhos.Jeca tatu

Fora isso, tem o problema temático de alguns de seus filmes que, além de uma pobreza de conteúdo, vem carregado de preconceitos embutido no inconsciente coletivo das pessoas. No dia a dia Mazzaropi era uma pessoa simples, que tratava bem seus funcionários e empregados, mas, na condição de empresário, era conhecido pela famigerada mão de vaca, proibindo, por exemplo, que um copo de leite fosse extraviado dos currais de sua fazenda. Também não era nada fácil de lidar com ele na hora de acertar o cachê de suas estrelas. Esses detalhes e outros estão abertamente no documentário de Celso Sabadin, que teve todo o cuidado em não denegrir a carreira de um dos grandes nomes do cinema nacional.

De origem humilde, como livro mostra, Mazzaropi sonhou com a carreira de artista desde pequeno. “Desde criança eu tinha mania de ser artista. Queria andar no arame, fazer tudo que via no circo. Em Curitiba, em já media casimira fazendo pose! Vendi, imaginando uma câmera na frente! Tinha isso no sangue…”, disse certa vez.

E tinha mesmo. O avô caboclão, era tocador de viola e contador de “causos” e Mazzaropi cresceu vendo as apresentações dele, seu primeiro ídolo, em eventos culturais pelo interior de São Paulo. Como a escola não era um lugar que o agradasse, aos poucos ele foi deixando que a arte tomasse conta de sua vida, fazendo pequenas apresentações entre uma atração principal e outra nos circos da vida.

Um dos pioneiros na formatação da indústria do cinema no Brasil, o estilo de Mazzaropi, assim como viria a ser o de Renato Aragão no futuro, era uma amalgama de várias influências e referências. Ia do já citado teatro de variedades, passando pela pornochanchada, e claro, tendo como base profunda, o homem simples do campo. “Talvez Mazzaropi tenha morrido cedo demais. Mas será que o Brasil de hoje teria espaço para ele? A julgar pelo sucesso recente de 2 filhos de Francisco, para todos os efeitos um filme ‘caipira’, é muito possível que sim”, defende o respeitado crítico de cinema Rubens Ewald Filho, no prefácio do livro.

* Este texto foi escrito ao som de: Leandro & Leonardo Vol. 4 (1990)

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