Olho nu (2012)

Destaque no Festival de Brasília, filme traz várias facetas de Ney Matogrosso

Destaque no Festival de Brasília, filme traz várias facetas de Ney Matogrosso

Ney Matogrosso foi um furacão que passou pela música brasileira e até hoje, aos 72 anos, suas labaredas de ousadia, descontentamento e anarquismo reverberam nas canções que canta, nos gestos sensuais e provocadores que faz em cima do palco. Ney Matogrosso é o tipo de artista que não leva desaforo para casa. Nunca levou. A trajetória do homem e da persona performática está registrada no documentário Olho nu, em cartaz na cidade. Dirigido por Joel Pizzini, o filme, exibido no Festival de Brasília em 2012, é um mosaico de sensações, lembranças, desabafos e revelações desses dois Neys.

“Adoro ser subversivo. Só sei ser subversivo”, escancara em dado momento do filme. “O tempo é uma invenção. Não existe ontem, hoje e amanhã. O tempo é”, reflete em outro instante.

Conhecido por seu estilo lírico, sensorial, Pizzini se envereda por narrativa fragmentada nada convencional, desnudando passo a passo, os segredos, medos, manias e verdades do artista. Filho de militar, aos 17 anos Ney Matogrosso foi expulso de casa. O pai não aceitava o jeito sensível com que o menino e adolescente viam o mundo. Mais tarde o coroa, numa entrevista que é um verdadeiro achado, revela que aprendeu aceitar o filho do jeito como é. “Eu queria ser pintor, rabiscava em papel de pão, no chão, na terra”, revela.

Olho nuNem Ney sabia que tinha o dom de cantar, ser cantor era uma realidade distante e inimaginável. Quando fez parte de um coro musical pela primeira vez, achou que fosse passar despercebido num grupo de 60. Quando o maestro ouviu a voz do rapaz tomou um susto. Viu ali um talento raro, um timbre singular, joia rara. Quando subiu ao palco pela primeira vez, em Brasília, na UnB, um lunático gritou da plateia: veado! Enfurecido Ney mandou parar o show no alto e encarou o sujeito: “O que você disse? Repete se você for homem”, desafiou. “Nunca subi no palco como uma pessoa, mas como um personagem”

O bacana de Olho nu – e isso tem irritado algumas pessoas -, é que ele vai muito além, como tinha de ser, do que as pessoas conhecem do artista, que é a da imagem dele rebolando livre, leve e solto em cima do palco ou pela sua passagem pela fenomenal grupo, Secos & Molhados. E o melhor ainda é que Joel Pizzini – que busca imagens de seu clássico filme Caramujo-flor  no qual Ney Matogrosso faz o protagonista -, traz esse olhar revelador e desconhecido da intimidade de do artista sem aprofundar no que traz de novo, deixando que o público assimile a novidade do jeito que dá.

O material de arquivo são raros, vastos e reveladores. São fotos, imagens e entrevistas do artista nos bastidores dos shows, no camarim preparando a elaborada maquiagem glam rock, na intimidade de sua bela casa, andando super à vontade com os pés nos chão, peito nu, de bem com a vida e a natureza. A homossexualidade, a amizade colorida com Cazuza, a relação com as drogas estão lá, mas mais uma vez expostos de forma subjetiva e há quem acuse Pizzini aqui de preservar a imagem do artista aos olhos do público. Será?

Bem, sai da sensação com vontade de escutar todos os discos da carreira solo do artista. E só por isso o documentário já valeu.

* Este texto foi escrito ao som de: Água do céu-pássaro (Ney Matogrosso – 1975)

Ney matogrosso

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